Tieta, ou a mulher que nos ensinou a dizer o que não se dizia

 

Há figuras que marcam épocas e redefinem a nossa perceção do desejo, do corpo e da liberdade. Tieta foi um símbolo de rutura num país acostumado ao silêncio, ensinando-nos a nomear o que antes era proibido. Este poema de reflexão pessoal junta a nostalgia dessa descoberta da juventude à passagem implacável dos anos — uma conversa íntima sobre a memória, a atração e o tempo que tudo reconfigura.

Dunas de areia ao crepúsculo sob luz dourada e dramática, evocando memórias e desejo.
…com dunas secretas que desejava escalar.

Tieta

Conheci-te, Tieta,
no mundo maduro
da fantasia,
à distância de um beijo,
um beijo distante de te dar.

No tempo que apontava ao céu,
Fizeste-me sonhar
com dunas secretas
que desejava escalar.

Teu rosto amplo e bonito,
enfeitado por negros cabelos revoltos,
teus grandes olhos abertos,
teus lábios viçosos de chamariz suculento,
teu corpo lapidado de bronze quente,
supliciaram meu corpo febril
na insuportável antecâmara do sono.

Era então que te via mais nítida
num corpo possante
de curvas coleantes
que rolavam na minha cabeça
sem o poder ameigar.

Embalado pelo devaneio
candente da tua voz,
sentia as fímbrias da alma
tocadas por curvas etéreas
que desejava corpóreas.

Contigo vivi, convivi, cresci.
Quando descobri o amor,
foste tu que numa noite louca
de rebeldia escaldante
disseste a palavra proibida:
não é amor, é tesão no corpo
que se sacia na tesão do outro.

Foi bonito de ouvir.
Foi um escândalo!
Sem que o soubesses,
tiravas Portugal da letargia
casta de cândidas décadas.
Ateaste o fogo das relações escaldantes.

Os anos passaram
e às vezes passeava por dunas.
E outras.
E outras…
Trepava por elas
até ao monte mais alto,
ao pico mais hirto.
Às vezes mordia-me a imaginação
do teu corpo a rolar no meu
em momentos de saudosa exaltação…

A tua rebeldia na fala
do corpo
sempre me surpreendeu
no tempo em que a tua
nudez
era a fruta exótica que desejava
trincar
sem receio de pecar.

Foste tu que me ensinaste
a caminhar,
a escolher e saborear
as melhores maçãs
do pomar.

Os anos decorreram.
Perdi-te.

Ressurgiste!
Quase te tinha esquecido.
O tempo assim faz.
As boas memórias,
se tocadas na alma,
regressam em força.
Tocaste-me como sempre o fizeste.

Se em tempos me ensinaste
que pura tesão
poderia transfigurar-se em amor,
agora, que aponto à terra,
ensinas-me o que o tempo
faz ao bronze da pele,
ao talhe fino das curvas,
ao amor que fenece
com falta de tesão.

Poucos mais anos tens que eu.
Revejo-te esotérica,
tal como foste,
como és,
por trás da pele sarapintada e sulcada:
os mesmos olhos negros,
o mesmo fogo!
Revejo-me
no que foste,
na maldade do tempo
que faz o que somos.

Porque andava distraído,
não o vi.
Se quando eras nova me davas tesão,
agora que vi
o tempo esculpir teu rosto,
dás-me a perceção do tempo
que passou
e sou,
com pouca
ou nenhuma tesão.

Percorremos caminhos diferentes,
com sonhos desiguais,
e continuo a ver-te bonita,
Tieta!
Agora sem amor que sacie
no corpo a fome da tesão:
virtual ou real,
que tem de esperar
por Marte e Vénus alinhados,
se estiverem para aí virados,
cada vez mais desalinhados.
Tudo passa.
Antes das cinzas,
restam os resquícios da memória.

Um dia destes
vamos por fim
dormecer.
Vamo-nos encontrar,
trocar impressões,
sem pressas,
sobre o passado e o futuro.
Tempo não nos há de faltar.

Formações rochosas fálicas e imponentes esculpidas pela erosão sob céu azul limpo.
…até ao monte mais alto, ao pico mais hirto.
Fim do Artigo

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Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

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Comentários de Leitores

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Armando Costa Salgado 12/08/2026 às 9:50
Adorei o artigo. Este minhoto escreve muito bem. Dá gosto acompanhar a sua escrita.

Welfare Fernando Vieira 21/03/2026 às 21:04
Ótimo texto de interpretações errôneas que fazíamos em nossa juventude.

Paulo Rodrigues de Aguiar 19/03/2026 às 13:05
Gostei de todas as publicações, tenho interesse de me aprofundar nestes assuntos
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