
A Despedida e as Mágoas que o Tempo Não Apaga
Há uns anos, tive o privilégio de me encontrar com três amigos muito próximos pelas razões mais tristes e alegres. Tristes porque um deles acabara de partir; alegres porque os dois que ficaram sabiam o quão querido ele era, mas não imaginavam a dimensão e a grandeza dos conhecimentos que tinha. As muitas pessoas, humildes e abastadas, que vieram prestar-lhe homenagem não cabiam no interior de uma espaçosa igreja. Outras tantas mal cabiam no largo adro fronteiro e circundante. Não são muitos políticos e homens de cultura que conseguem reunir tanta gente na hora da despedida.
Dos três, ficámos dois para rememorar cenas da vida. Sabia que este meu amigo tinha alguns problemas mal resolvidos com amigos comuns e perguntei-lhe como estavam as coisas. Respondeu que estava tudo bem. A dada altura, e porque o momento a isso convidava, disse uma frase que nunca esqueci: «Brincamos, rimos, acompanho quando sou convidado, mas devo confessar que as coisas nunca voltarão a ser como antes. Poderei vir a perdoar, é uma mágoa que tenho, mas não esqueço.»
Salamanca e Ávila: Cidades de Grandes Pensadores e Sombras da Inquisição
Durante esta semana, andei por Salamanca e Ávila. Fui a museus, catedrais, conventos e universidades. Para quem gosta, é também deste alimento que se constrói o espírito. Ávila vale pelas suas monumentais muralhas, por Santa Teresa e pelo pouco visitado, mas belíssimo, Convento de São Tomás de Aquino. Infelizmente, o convento está ligado a uma página de horror no mundo católico e ao infeliz Torquemada, de má memória.
Em Salamanca tudo é grande e monumental: edifícios religiosos e universitários. Foi e é uma cidade de saberes e grandes cabeças pensantes que remontam aos inícios do Século XIII. Por ela passou Francisco de Vitória, um dos fundadores do direito internacional, que ensinou que todos os homens são iguais e que os indígenas não podiam ser expropriados das suas terras e bens. Também por lá passou Luís de León, preso e torturado pela Inquisição durante anos. Depois de ser libertado, retomou a cátedra com as célebres palavras: «Como dizíamos ontem…» Passou ainda Miguel de Unamuno, grande amigo, apaixonado por Portugal e visitante frequente. Reitor da universidade, não se vergou a Franco e por isso pagou o preço da afronta.
Também por lá passou e lecionou astrologia o famoso conselheiro de D. João II, Diogo Ortiz. Não terá visto o Céu de Salamanca, pintado na década de 1480, mas terá contribuído para a discussão e desenho do céu de 1475, quando partiu para Portugal nesse mesmo ano ou no ano seguinte. Foi a visão desse céu que me trouxe à memória um dos artífices de D. João II, crucial para que este deslocasse teimosamente o meridiano para os lados da Terra de Vera Cruz.

Vilar Formoso e a Casa de Aristides: Onde a Maldade Extrema Gerou o Bem
Depois destas grandes cidades e personagens que mudaram o pensamento e o mundo — infelizmente, Torquemada mudou-o para o pior —, ainda estava guardado para mim, sem o saber, o encontro com mais duas páginas de horror, esperança e bondade: o Memorial da Paz em Vilar Formoso e a Casa de Aristides de Sousa Mendes. Nestes dois locais está exposto o melhor que o mundo tem: a humildade dos que pouco ou nada tinham para acolher os desesperados que procuravam um oásis de acolhimento, num país que tudo fez para os rejeitar; mas também o horror inimaginável do que é capaz de fazer a humanidade — um horror bem real e doloroso.
Infelizmente, a maldade extrema gera o bem, muito para lá do que supomos ser o bem. Aristides, tendo tudo, deu tudo. Vilar Formoso, não tendo nada — como é visível no filme de um fugitivo, que mostra os trapos dos moradores e as condições insalubres das habitações —, deu o que tinha: sorrisos, uma sopa e pão. Os refugiados chegavam sem nada e com fome; uma sopa era o mais rico dos manjares. Quem chegava? Judeus? Chegavam todos, de todas as nações. Um terço de judeus, dois terços de não judeus. A realidade da guerra era bem diferente: cerca de oitenta milhões de pessoas e, destes, aproximadamente seis milhões de judeus.
O Erro de Reduzir o Holocausto a uma Única Identidade
E aqui dá-se um terrível engano. Os judeus tinham nacionalidade, assim como os católicos, ciganos, deficientes e demais grupos que realizavam ou faziam parte da «solução final», qualquer que ela fosse. Ao reduzir-se a maldade apenas aos judeus, glorifica-se pela negativa uns e menospreza-se outros. Porque não reduzimos os números de mortos a católicos, protestantes, cristãos, muçulmanos e outras religiões ou minorias? Este é o primeiro grande erro histórico: associar o Holocausto exclusivamente aos judeus. Os outros, pura e simplesmente, deixam de existir no imaginário comum.
Vilar Formoso carrega uma ironia nada formosa: desespero e degradação humana. Nesses dois locais, como em outros por onde passei, não vi judeus; vi pessoas. Vi os mesmos sofrimentos, o mesmo desespero, as mesmas perdas, as mesmas fugas. E tudo isso provocado por nações cultas, ricas e respeitáveis. Não vale a pena nomeá-las. Todas estão associadas ao poder, à riqueza, à militarização e à busca de terras — tantas vezes por interesses mais pessoais que coletivos.
A Cultura Ontem e a Incultura de Hoje: O Perigo da Repetição
Na Casa de Aristides e em Vilar Formoso recebi um murro no estômago dado pela história e pela decadência humana. Quando projetei os valores de então com os de hoje, apercebi-me de que o que aconteceu no passado foi feito por homens que estudaram latim e grego, humanidades, teologia e filosofia; eram religiosos e frequentavam os templos. Em suma, era gente culta, o que não os impediu de fazer o que fizeram. Quando os comparo com os líderes de hoje, vejo gente inculta e bronca em todas as nações. Se a cultura fez o que fez, o que farão os grosseirões de hoje?
Nos dois locais, voltei a fazer comparações. Não vi nos judeus de 1941 o Israel de hoje. O que sei e li sobre Israel, com raras exceções, desde logo o Nobel da Paz de Arafat, Rabin e Peres, foi a radicalização dos dirigentes políticos para anular um povo com o qual devia, por uma questão de justiça e equidade, promover a convivência pacífica. A mentalidade tornou-se: «quem não é por mim é contra mim; quem não é judeu é antissemita». Israel nunca se mostrou interessado em relacionar-se com os legítimos donos da terra que usurparam.
Quando olhei para as fotos e os testemunhos de destruição e coisificação, interroguei-me: que há de diferente entre a Alemanha de então e o Israel de hoje? As ruínas diziam-me que a Alemanha de então alienou os alemães, tal como Israel o está fazendo aos seus. As duas sociedades foram incapazes de travar a caminhada para o desastre.
Ali mesmo tomei como minhas as palavras do meu amigo: «Poderei vir a perdoar — acho que sou capaz de perdoar tudo, até a quem me corta um braço —, mas esquecer? Não! Jamais.»
Está nas mãos dos Golias conceder a esperança e a paz; faz parte da natureza dos fracos lutar pela sobrevivência. Da lição de Vilar Formoso e da Casa de Aristides tiro a seguinte pergunta: porquê, se todos nós sofremos com a perda, para sempre, de muito conhecimento e humanismo abatido pela bota de Hitler?
Gostou deste artigo? Partilhe com quem também vai gostar.
Um clique pode inspirar outra leitura.
Luis Manuel Silva
Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana.Não perca o meu próximo artigo.
Receba todas as semanas reflexões exclusivas, análises e excertos inéditos dos meus livros.
Comentários de Leitores
Veja o que outros leitores acharam dos meus artigos.
Deixe um Comentário