Uma Vida Feita de Leituras: Quem me influenciou a escrever?

Estante de livros antigos e manuais técnicos empilhados com fotografia de família ao centro, ilustrando memórias de leitura em Portugal.
Os livros que povoaram a minha meninice e os manuais que acompanharam a minha carreira.

Os primeiros encontros com os livros

Antes de saber ler, já conhecia histórias de cor. Chegavam-me em pequenos livros de pano, cheios de letras grandes, cores, fadas, feiticeiras, madrastas e gente má. A minha relação com a leitura começou assim: primeiro pela voz dos outros, depois pela vontade impaciente de decifrar sozinho aquelas páginas.

Quando fui para a primeira classe, tinha pressa de aprender a ler para poder decifrar sozinho aqueles livrinhos de pano. Os textos escolares também me atraíam. Na altura não o percebia, mas hoje sei que procuravam incutir nas crianças o amor a Deus, à Pátria e aos pais, bem como o apreço pelo trabalho — sobretudo a lavoura —, pela honestidade, pela higiene e pela casa pobre, mas limpa e asseada. Apesar deste início escolar tendencioso, gostava dos textos e das histórias. Com os ditados, aprendíamos a escrever sem erros, a redigir e a resumir.

 

Um leitor voraz entre o estudo e o trabalho

Mais tarde, nas classes mais adiantadas, o livro de leitura trouxe-me pequenos textos de autores portugueses, e o gosto de ler não esmoreceu. A carreira académica, porém, interrompeu-se na quarta classe, quando eu tinha dez anos, e só foi retomada aos catorze, no ensino noturno. Seguiu-se uma longa caminhada de trabalho e estudo até à engenharia. Ainda assim, quando era rapazote, encontrava tempo para devorar tudo o que me aparecia: era um mata-borrão de leituras. Lia até as fotonovelas que detestava, quando não havia mais nada à mão. Vieram depois os mosquitos, as coboiadas, os livros de aventuras e outros um pouco maiores, como os de Emílio Salgari e o seu Sandokan.

O pouco dinheiro que me davam era gasto nas bancas de livros usados, onde comprava o 6 Balas, o Águia Negra, o Sandokan e outros semelhantes. Depois de lidos, os livros eram trocados com amigos ou até na própria banca, com um acréscimo de cinco ou dez tostões. Mais tarde, passada a adolescência, comecei a procurar livros de autores portugueses, mas não só.

 

Entre a literatura e os manuais técnicos

A minha leitura não obedecia a um critério determinado: tanto lia literatura rasca como literatura séria. O princípio era simples — ler o que aparecia, o que o dinheiro permitia e o que estava mais à mão. Com o avanço dos estudos e da vida profissional, porém, os manuais técnicos passaram a ocupar quase todo o meu tempo. A área em que trabalhava era exigente e obrigava-me a uma formação constante; como gostava do que fazia, era também aí que investia o dinheiro disponível.

 

O regresso aos clássicos

Só muito mais tarde, já depois da meia-idade, recomecei a ler com alguma assiduidade. Nessa altura, passei a ter algum cuidado na escolha dos autores, embora não necessariamente das suas obras de referência. Foi também nessa fase que conheci um pouco dos clássicos gregos e latinos. Neste caso, a escolha foi aleatória.

Livro aberto no capítulo Naufrágio e Sobreviventes ao lado de uma chávena de café, óculos de leitura e um pão com queijo num guardanapo.
Ler é também saber parar, saborear cada página e encontrar o nosso próprio ritmo.

Afinal, quem sou eu nos meus livros?

Porque conto tudo isto? Porque alguém me perguntou se há algum escritor ou livro que me tenha influenciado. Ao ler pequenos excertos dos meus textos, houve quem me aproximasse de um ou de outro escritor da nossa praça. Confesso que, apesar de ter seis livros publicados e outros tantos — ou mais — por publicar, não me revejo em nenhum deles, muito menos nos nomes que me apontaram. Gosto de escrever, mas não sou a pessoa indicada para avaliar a qualidade do que faço. Peço apenas uma coisa aos meus textos: que não provoquem um bocejo e sejam lidos até ao fim. Se o conseguirem, já me dou por feliz.

Se fui influenciado por alguém? Possivelmente por todos. Gostei das coboiadas, de Sandokan, de Tarzan, do Príncipe Valente, da literatura salazarista e dos pequenos textos dos autores incluídos nos livros de leitura. Ainda hoje gosto de sonhar com os contos de gente boa e má dos irmãos Grimm e de Perrault, e com Júlio Verne, que li muito no tempo de Sandokan.

Quem sou, então, nos meus livros? Sou eu e, ao mesmo tempo, um pouco de todos eles. Se alguma coisa sabemos fazer, é também porque recebemos muito daqueles que vieram antes de nós. Reconhecer que andamos aos ombros de todos esses autores não nos diminui; ensina-nos humildade. É com todos eles às costas que estou a escrever agora a trilogia sobre o Século XV.

Fim do Artigo

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Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

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Comentários de Leitores

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Armando Costa Salgado 12/08/2026 às 9:50
Adorei o artigo. Este minhoto escreve muito bem. Dá gosto acompanhar a sua escrita.

Welfare Fernando Vieira 21/03/2026 às 21:04
Ótimo texto de interpretações errôneas que fazíamos em nossa juventude.

Paulo Rodrigues de Aguiar 19/03/2026 às 13:05
Gostei de todas as publicações, tenho interesse de me aprofundar nestes assuntos
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