Onde acaba a mulher e começa Deus?

Partilho hoje um fragmento do meu romance, um momento em que as personagens, António e Madalena, se veem envoltos na aura solene de Fátima. Após uma visita ao Santuário, o diálogo flui para lá do óbvio, questionando dogmas e procurando o divino na essência humana. Um exercício de escrita onde a espiritualidade e o afeto se cruzam numa definição de Deus tão inesperada quanto íntima.

Onde acaba a mulher e começa Deus? Quando o sagrado se veste de mulher e o amor se torna oração.
Onde acaba a mulher e começa Deus? Quando o sagrado se veste de mulher e o amor se torna oração.

Onde acaba a mulher e começa Deus?

Excerto do meu livro, Madalena

«…

Era meio-dia, saímos da alameda e a língua desatou-se. A envolvência já não estava carregada com aquela sensação de paz e tranquilidade: estávamos, porém, dóceis e serenos. Fátima adoçara-nos as falas e os gestos. Estávamos atenciosos. Havia como que uma atenção que não passava pela sensualidade conspícua. Eram as almas serenas e dialogantes que nos encaminhavam.

— Gostaste de ter vindo aqui comigo? — perguntou Madalena com um misto de paz interior curiosa.

— Ficamos leves, não ficamos?

— Sabia que ias gostar. Por isso é que queria vir aqui contigo… temos uma religiosidade interior diferente. Mas muito semelhante — disse ela com sentimento.

— Não sei o que chamo ao meu interior. Sabes que fui educado na religião, segui-lhe os preceitos, afastei-me sem ter qualquer razão para isso. Decorridos estes anos todos, não sinto qualquer tipo de chamamento que me leve à Igreja.

— Mas tens Deus na alma. Sempre O vi em ti.

— É possível… Por vezes tenho os meus momentos de introspeção e quando assim é, qualquer lugar solitário, com beleza natural, ajuda-me a refletir. Até cinco minutos sentado no silêncio de um banco, no interior de uma Igreja…

— …

— Lembro-me de ter entrado, uma vez, em Pádua, na Basílica de Santo António. Vadiei pelo Templo e quando passei pelo túmulo do Santo, parei e comovi-me. Fiquei diante do túmulo, seguramente, uns dez minutos. Esqueci por completo as orações aprendidas, mas ali, diante do Milagreiro, falei interiormente com ele e pedi-lhe para zelar pelos meus filhos, por todos quantos amava! Foi um momento marcante.

— Estás a ver como tens Deus na alma.

— Terei?… Vou contar-te um segredo. Responde primeiro a esta pergunta: o que é, ou quem é Deus, para ti?

— Vê lá se compreendes: Deus não se questiona. Não se pergunta o que é ou quem é. Deus aceita-se sem reservas; temo-lo no corpo, no coração, na alma, na envolvência, no universo. Deus é luz pura, indefinida e infinita; não é matéria nem vacuidade. É espírito que paira, está, se expande. É tudo o que está para além da nossa compreensão, porque não temos inteligência para O compreender. No entanto, temos inteligência suficiente para ter fé, aceitá-lo. Este é o meu Deus. Será também o Deus de todas as outras religiões, só que visto de maneira diferente. É o teu Deus, visto do modo como O vês. Respondi?

Madalena surpreendia-me sempre. As conversas dela eram objetivas, frases curtas, quase telegráficas, no entanto, profundas. Este conceito de Deus, que ela desenvolveu, ia muito para além da frase seca e telegráfica. As frases dela, apesar de curtas, obrigavam a pensar. Eram desafios que colocava a quem quisesse compreendê-la.

— Deslumbraste-me com a tua definição de Deus…

— Enganas-te! Deus não se define. Por ser infinito, é indefinível.

— … acho que é tudo isso, e também indefinível, como acabaste de dizer. Apesar de ser indefinido, vou dar-te o meu conceito de Deus: não sei porquê, mas sempre achei que Deus é uma mulher.

— Dá cá a testa… Logo vi, estás febril! Não sabes o que dizes.

— Posso concluir o meu raciocínio ou não? — Madalena abanou a cabeça com dúvidas e ceticismo, a dizer que sim, e continuei. — Não me perguntes porquê, porque não sei explicar. Talvez por vir de uma família onde há mais mulheres que homens, habituei-me a ver nos homens uma certa submissão e nas mulheres inteligência, sabedoria feminina, intuição, exercício discreto do poder: a presença anímica que impulsiona o homem sem que este se aperceba da mão invisível que o ajuda…

— António, não estás bem! Que te deu?!

— …por estas razões há uma certa semelhança no conceito de Deus. E porque há semelhança, vejo-as como o ser privilegiado que está mais próximo d’Ele. Deus é amor, é belo, é paixão, é fé, é sublimação, quer sacrifícios, deseja ser adorado, tem necessidade de amar desinteressadamente, espera, ardentemente, que O amem… diz-me: não estamos a falar de uma mulher? Onde acaba a mulher e começa Deus? Os dois não são um? Os céus e a terra não são o seu território? E os mortais, onde estão eles? Como se encaixam? Como são conduzidos até Deus? Os homens não ficam reduzidos ao papel de simples adoradores, sujeitos aos caprichos da graça divina? Ansiosos por agradar a Deus? Desejosos de serem possuídos pelo fogo de Deus? E quanto mais penso em Deus como ser puro de mulher, mais me agrada ter Deus a meu lado, caminhar lado a lado comigo, partilhar a minha casa, a minha cama, brincar comigo, porque Deus está em todo o lado, estende-me a mão, resgata-me do pecado. Deus provoca-me, incentiva-me, deseja o melhor para mim; Deus convida-me a não perder as oportunidades que me vão surgindo, na minha caminhada terrena; permite-me o livre-arbítrio; porque é verdade e pureza, tem razão, tem sempre razão; os seus desígnios estão na infinitude de me ver bem e feliz; Deus desce do Olimpo, dos Céus, de onde quer que esteja para se colocar ao lado dos que ama e quer bem: por amor ama, por amor torna-se mortal.

— …

— …

— António, tu amas-me! Estás apaixonado por mim…

…»

 

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