
A diversidade vivida
Tive a sorte de nascer numa cidade privilegiada pela história, natureza e pelas gentes que a modelaram. No seu seio, abrigava uma comunidade urbana, industrial, comercial, semirrural e rural. Tão grande e diversificada comunidade coexistia e interagia entre si de forma liberal e criativa. Com vínculos estreitos à natureza florestal e agrícola, trabalhadora e criativa, ajustava-se de forma equilibrada com o tecido empresarial, agrícola e comercial.
A dinâmica dos citadinos passava pelos sapatos e tecidos, a cutelaria e os couros, a construção e a recuperação, a preservação dos espaços culturais, artesanais e históricos, a religiosidade e o desafio engenhoso do rigor religioso, o profano dos rituais: as Festas Gualterianas e Nicolinas. Enquanto as primeiras são promovidas pela cidade, em agosto, as segundas são ditadas pela afirmação e rebeldia dos estudantes, em finais de novembro.
No decurso dos nove dias das Nicolinas, os estudantes da cidade, desde os juvenis aos universitários, desenvolvem múltiplas atividades focadas na alegria: arruadas de toques e cortejos pelas ruas da cidade. No auge das Nicolinas, está o romantismo e a brejeirice de uns e de outras. Eles declaram-se com ofertas de maçãzinhas, que poderão ser aceites ou não. Na doçaria, ambos oferecem ou recusam: elas a passarinha; eles o sardão. Às vezes, com ofertas mal dirigidas.
Nos acontecimentos sociais e religiosos, ao longo do ano, ambos se declaram publicamente com um lencinho e uma cantarinha dos namorados, com enfeites e declarações simbólicas de amor, cheias de cor.
A diversidade como ética
Esta diversidade regional e local, com tudo o que tem de bom e de recusa, deixou-me marcas profundas e contribuiu para que não me afunilasse em horizontes apertados e estéreis. Nela aprendi a mergulhar num mundo de riquezas naturais e humanas, mas também, com flexibilidade, a abraçar novas ideias e mudanças de peito aberto. Por tal razão, fui e sou recetivo a tudo o que são transformações, desde que em prol da natureza e do conforto humano, sem prejuízo do equilíbrio da biosfera, que somos todos nós: orgânicos e inorgânicos.
Quando comecei a trabalhar, ainda jovem — nos meus tempos não havia exploração infantil, machismo… era um mundo tão normal como é anormal os olhos de hoje, que criticam o mundo em que nasci, assim como o dos séculos anteriores —, tive a sorte de ter um chefe rigoroso, inteligente e de trato difícil. Para começar, não tolerava o desperdício. Sempre que tinha de utilizar matéria-prima para construir ou corrigir, usava o estritamente necessário, se possível, sem desperdícios.
A primeira lição que recebi foi devido a uma árvore que tinha de ser derrubada por dificultar a continuação dos trabalhos. Respondi: «O que mais há por aí são árvores.»
«Pois há — resposta seca e terminante —, mas se ninguém as plantar, as florestas também se esgotam. Desenrasca-te!»
Isto passou-se numa altura em que ainda se acreditava que o planeta era inesgotável, que a natureza sabia regular-se e tomar conta de si. E de nós. Desde então, não sou avaro nem doentiamente perdulário: se puder usar sem desperdiçar, ou gastar cinco, não uso nem gasto dez.
A diversidade ameaçada
Este fim de semana fui à serra. Os estragos do temporal, com árvores partidas e derrubadas, estão bem presentes ao longo do caminho. As intensas chuvas que se seguiram varreram as sementes das serras. Mais de dois meses se passaram e não há nem vestígios do coberto serrano. Pelo caminho, florescem alegremente novas plantações de eucaliptos juvenis, que se juntam aos mais de 60 km em extensão e profundidade. As serras, carecas devido aos fogos, vendavais e chuvas que se seguiram à Kristin, estão nuazinhas de vegetação rasteira. Ansiosas por se vestirem, esperam pelo agasalho de mais eucaliptos, desta vez — e como sempre — com o aval das autarquias e do poder central. Acredito que, dentro de cinco anos, teremos novos rebentos a medrarem alegremente pelas serras.
A perda de hoje — permanente, infelizmente — faz-me sentir saudades do algodão das estevas, do amarelo e branco das maias, do violeta das urzes e da alfazema… e de todo o sistema biológico terrestre e aéreo: das árvores de fruto, dos pinheiros e castanheiros, das oliveiras e dos poucos sobreiros, dos carrascos e zambujos…

Da serra ao sistema
O preto, o cinza, o escuro e o nu das dezenas de quilómetros de serras circundantes deram-me que pensar na diversidade e no seu significado: variedade, multiplicidade, riqueza, etnicidade, economia, ADN, natureza, gerações, bolsa, ideias, irreverência, nações multiétnicas e multilinguísticas, imigrantes, miscigenação, realinhamento de culturas…
De tudo quanto vi e pensei, cheguei a uma conclusão: diversificação é riqueza e resiliência. Não gosto muito desta nova palavra, mas ela traduz perfeitamente a capacidade que a diversidade tem para enfrentar dificuldades e, a partir delas, encontrar novos caminhos. Resiliência é sinónimo de adaptabilidade e prossecução.
E o que faz a resiliência? Coisa tão simples como isto: dá oportunidade à genética orgânica para se aperfeiçoar e evoluir, adaptar-se e resistir às pragas e doenças que vão surgindo. Não só no mundo animal, onde nos incluímos, como na agricultura, mas também na vegetação rasteira e nas florestas. A diversidade mistura espécies novas com as velhas, e outras de diferentes tipos, para melhorar e resistir. Esta mistura da natureza inteligente permite a continuidade de matéria orgânica viva e saudável, tanto na terra como no mar e no ar. É o ‘Software’ vivo da Vida em transformação, na busca da perfeição. Se o deixarmos.
Se diversidade é vida, é o olhar do outro, a resistência às pragas, a regulação hídrica, o sequestro de carbono, o pulsar dos corações das sociedades, da natureza, da biologia orgânica, então deixo uma pergunta para todos os políticos — especialmente os nossos:
— O que sabem, que eu não sei, mas que a sua douta sapiência sabe, para que um país de eucaliptos gera riqueza nacional, se por esta pequena súmula se conclui que diversidade é riqueza?
Embora admita que possa estar errado, gostava de voltar cá, daqui por cinquenta anos, por cinco minutos apenas, só para ver o que fizeram às minhas serras, ao algodão e às maias, à riqueza do meu país, aos meus — e de todos — netos.
Serão mais ricos ou sobreviverão num deserto de monocultura?
Verão uma águia, um lagarto, um coelho, uma lebre, uma perdiz, um veado, um javali, um pardal…?
Culpar-nos-ão, e com razão, pelo nosso laxismo?
