A Geração “Ainda Não”

Geração 30, pagar rendas de Paris com ordenados de Lisboa. O paradoxo de um futuro adiado.
Geração 30, pagar rendas de Paris com ordenados de Lisboa. O paradoxo de um futuro adiado.

Na semana passada, conduzia com o rádio sintonizado na TSF. Gosto daquela emissora por dois ou três motivos. Primeiro, não inventam nem “enchem chouriços” nos noticiários: são sucintos. Segundo, gosto dos comentários e entrevistas de fundo sobre política nacional e internacional. Terceiro, e acima de tudo, o programa diário das dez ao meio-dia é uma autêntica lição de cidadania e serviço nacional. Deveria ser replicado, noutros moldes, por todos os meios de comunicação social. Este programa abre uma janela para os mais diversos assuntos da atualidade nacional que mais preocupam os portugueses, contando com comentadores de diversos quadrantes políticos, sociais e cívicos. Mas o mais importante: os ouvintes são convidados a participar com ideias, críticas e experiências pessoais — ou coletivas —, por telefone e redes sociais.

1º O Despertar na Rádio: A Descoberta da Geração “Ainda Não”

Nesse programa, alguém referiu a riqueza e a falta de oportunidades para os nossos jovens. Fiquei a saber que um por cento da população portuguesa detém um quarto da riqueza nacional. Em contraponto, soube que o nosso país tem uma nova geração: a geração trinta. Desconhecia que tanta riqueza acumulada estivesse em tão poucas mãos, assim como desconhecia que a “geração trinta” faz parte dos que saem de casa aos trinta anos, emigram aos trinta e não são reprodutivos antes dessa idade. Já conhecia os millennials, a “geração à rasca” (e a “rasca” — designação infeliz) ou a geração Z. Desconhecia a geração dos 30, também conhecida por «ainda não».

2º Os Filhos da Liberdade e o Peso da Herança

A minha geração, da década de cinquenta, apesar de ter nascido em pleno período salazarista, faz parte do pós-guerra, os Baby Boomers. Ainda que com as condicionantes do Estado Novo, viveu com limitações a infância e a juventude, fez a guerra colonial, participou ativamente nas transformações políticas e sociais, viveu o crescimento económico do pós-guerra, o 25 de Abril e a transição para a democracia. Mesmo com sacrifício e trabalho, é uma geração abençoada que se realizou e tentou transferir as suas frustrações, anseios e projetos de vida para os filhos. Esqueceram-se, porém, de que as novas gerações têm projetos de vida diferentes.

Esta transferência de valores e realização resultou na criação de novas gerações com valores completamente diferentes dos dos pais. São mais cultos, letrados e reivindicativos. As gerações até ao ano 2000 são os filhos da liberdade. Uma geração que, com os poucos meios que tinha, deu tudo, incluindo as ferramentas necessárias para criar a geração mais qualificada de sempre. Estes filhos da liberdade, apesar de bem formados e com qualificações invejadas pela Europa a custo zero, vivem numa crise e angústia permanentes. Não sabem se hão de culpar os pais por lhes terem roubado o futuro — os pais que, com poucas habilitações, ocuparam todos os lugares que a democracia criou — ou se lhes devem agradecer por terem proporcionado uma educação académica invejável. Uns e outros não sabem como se comportar. Por via disso, existe uma revolta latente na geração «ainda não». Os pais conhecem-nos, mas não os compreendem, e continuam a sacrificar-se por eles.

A pós-adolescência obrigou-os a adiar a vida adulta. Aos trinta anos, as gerações anteriores já estavam casadas, tinham casa e filhos; estavam no pico da estabilidade. As mais recentes estão ao nível dos dezoito anos e não sabem se alguma vez crescerão. No entanto, têm qualificações de nível superior e um ordenado pouco acima dos mil euros. Um valor demasiado alto para receberem apoios, mas demasiado baixo para construírem a vida.

3º O Equívoco dos Doutores e a Morte do Elevador Social

Paralelamente, se um quarto da riqueza se concentra nas mãos de um por cento da população, significa que enquanto a maioria luta para pagar a renda, a minoria vê os rendimentos crescer. Se o capital se concentra, o esforço para crescer económica e socialmente degrada-se. Ainda que trabalhem doze horas por dia, estes jovens não geram riqueza. Não têm razão os que atribuem à preguiça a falta de vontade para lutarem por uma vida melhor. «Há muito emprego, eles é que não querem trabalhar». Tal linguagem é desonesta, desleal e digna do narcisismo de quem está acomodado, principalmente se vier das gerações de 50, 60 e 70 — esta última, a derradeira a ocupar os poucos lugares disponíveis.

Quisemos formar doutores, agora temos de arcar com as responsabilidades de um ensino mal dirigido. Em vez de doutores, podíamos ter um desenvolvimento económico equilibrado se tivéssemos desenvolvido um sistema de ensino ligado às áreas técnicas: agricultura, indústria, construção, serviços e comércio, sem esquecer a maior riqueza do país — o mar. Ignoramos ostensivamente que esta força educativa lidava de perto com a produção de riqueza e gerava empresas prósperas, coadjuvada pelos doutores. Todos teriam o seu lugar no mercado de trabalho e seriam uma força dinâmica geradora de riqueza nacional. Não gosto de me sentar numa esplanada ou restaurante e ser atendido por um doutor que ganha pouco mais de mil euros. Salazar queria um Portugal “orgulhosamente sós”; Portugal forma agora orgulhosamente os seus para os exportar.

Se na minha geração comer “pão com pão” ou “arroz com arroz” era visto como um elevador social que gerava património, presentemente, nem para uma parede de tijolo dá. O topo da parede — a habitação — é demasiado elevado. O capital, em vez de ser usado na produção que gera salários condignos, foi desviado para ativos patrimoniais.

4º As Duas Faces do Capital e a “Latinização” de Portugal

Este capital tem duas origens interessantes. A primeira trata-se de um capital histórico e hereditário ligado a famílias influentes. Por ser histórico, quem o detém limita-se a gerir e aumentar a riqueza sem muito trabalho: o capital alimenta-se de si próprio. Quanto a mim, este será o menos pernicioso porque se vai moldando e até cria emprego. Mas tem o lado negativo de saber usar bem a política e os seus fazedores. E é nestes fazedores da política que tem origem a segunda forma do capital. Não é preciso cavar fundo para perceber que todos os anos saem da política dezenas de novos mini-capitalistas que acabam convertidos em grandes capitalistas.

Os agentes políticos constituem uma nova forma de aristocracia que cresceu do zero e, à semelhança da nobreza histórica, conseguiu gerar riqueza a coberto da cidadania, acabando por transferir as suas posições aos herdeiros. Esta é a riqueza mais perniciosa, gerada anualmente no poder central e local — o pequeno aristocrata ou cavaleiro, servidor do aristocrata, que este, por sua vez, serve o capital hereditário.

Enquanto a Europa tem uma classe média que não depende da herança nem dos fazedores da política, Portugal tem um custo de vida europeu com salários estagnados. Verifica-se um paradoxo: o salário mínimo está quase encostado ao salário médio. Se não soubermos cuidar da classe média, não tardará muito em termos uma “latinização” tipo sul-americana ou cacique africano: uma pequena elite de muito-ricos e os restantes, o grosso da manada, muito pobres.

A angústia psicológica da geração «ainda não» confronta-se com esta realidade: paga rendas de Paris com ordenados de Lisboa. A minha geração foi uma geração abençoada porque pôde dispor de um elevador económico bem oleado; foi, também, uma geração maldita porque não soube, ou não quis, criar condições para os filhos da liberdade. Afinal, os seus próprios filhos. A revolução fez tudo bem, menos proteger o futuro.

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