O Tesouro na Floresta da Indiferença

O abraço de um padeiro que rompeu o embotamento do mundo e provou que ainda há espaço para o amor.
O abraço de um padeiro que rompeu o embotamento do mundo e provou que ainda há espaço para o amor.

As duas crianças encontradas na estrada que vai de Alcácer do Sal para a Comporta foram um banho de realidade que despertou em nós sentimentos arredados da nossa realidade do dia a dia.

A anestesia do mundo e as nossas misérias

Já habituados à desgraça que tem vindo a grassar nos últimos anos, começamos a ficar demasiado presos à banalidade e à ligeireza das misérias humanas. Nunca é demais chamar a atenção para o que se passa em Gaza e Cisjordânia, na Ucrânia e Irão, mas também para os países ditos civilizados, ou em vias disso: Rússia, China e Estados Unidos. E muitos outros com políticas de repressão e matança mais ou menos discretas.

Mais grave é o caso da Palestina. Os judeus, que sofreram na pele os horrores das fábricas de matança de Hitler, deviam ter no seu ADN todos esses anos de sofrimento, espoliação e aniquilação. Parece que nada disso os sensibilizou, a avaliar pelo que se passa em Gaza — pela destruição e terraplanagem sistemáticas das cidades, vilas e aldeias. Em Gaza morrem no meio da lama, dos ratos e nas casas de pano; à fome e saciados nas águas imundas; num processo lento e metódico que a história já viu antes e que a consciência coletiva prometeu nunca mais permitir.

Todas essas desgraças e misérias humanas entram-nos pelos olhos adentro e já não somos capazes de nos comover como nos comovíamos antes. A distância também ajuda a olhar de soslaio para o que se passa em outras paragens. Perdeu-se a emoção dos primeiros tempos que desencadeavam em nós sentimentos de comiseração. Sentimentos como a tristeza, pena, raiva, dor, impotência, angústia, indignação, endureceram-nos e embotaram a nossa capacidade de seres emotivos.

O falso tesouro e o abraço do padeiro

No entanto, e quando tudo parecia perdido, vêm em nosso socorro os resquícios da alma. É nela que se abrigam teimosamente os sentimentos que julgávamos esquecidos. Infelizmente, uma mãe e um suposto padrasto, que não devem nada ao que acima foi dito, deixaram duas crianças a brincar. Ficaram com os olhos vendados numa mata ou floresta, algures, em Alcácer do Sal. As crianças teriam ficado a brincar alegremente à procura de um qualquer tesouro. Como o caminho para o tesouro prometido seria longo, foi-lhes dado uma mochila com o essencial para sobreviverem. Nada mais natural, para duas crianças de 3 e 5 anos, brincarem às escondidas na floresta, de olhos vendados. As crianças, tal como se predispõem de imediato para a brincadeira, também rapidamente se saturam. Principalmente se lhe faltarem os sinais da presença e dos estímulos dos pais. Sem sinais auditivos, depressa se viram desamparadas. Abandonadas!

Que terá passado pela cabeça desta gente para abandonarem dois juvenis com poucos instintos de sobrevivência? Não vale a pena falar da mãe, mas vale a pena falar das crianças, do desespero que teriam sentido quando deram pela falta de quem os devia amar e proteger. Manifestaram-se da única maneira que sabiam: descobriram o caminho da estrada e choraram desalmadamente. A partir de então, o destino conspirou para proteger as crianças. Um padeiro que passava com a carrinha por uma estrada deserta, com mata de um lado e outro, ao ver as duas crianças na estrada a chorar, passou à frente e ignorou-as por pensar que se tratava de um esquema mafioso. Parou mais adiante, viu pelo espelho retrovisor o que se passava, ficou atento e vigiou. Certificou-se de que não se tratava de nenhum esquema e aproximou-se das crianças. Apesar da convulsão dos choros, abraçou-as e conseguiu saber o que se passava: as crianças foram abandonadas!

Nascer de novo para o futuro

Neste ponto começa a vir ao de cima o melhor de todos nós. Pelo menos da maioria, já que a mãe e o padrasto, à semelhança dos anteriores, não são dotados. Para as crianças, terá sido um raio de luz e de esperança; para o padeiro, sentimentos cruzados de pena, tristeza, alegria, empatia, frustração.

A partir de então, criou-se uma rede de proteção para com as crianças e rapidamente se chegou aos autores do abandono. Ninguém sabe como será o futuro destas crianças. Como irão lidar com o abandono? Que tipo de relações de confiança ou desconfiança irão ter com a humanidade em geral? Como se relacionarão com a rede familiar e amiga. No entanto, elas reavivaram em nós sentimentos de solidariedade, esperança e amor. Em poucos dias, fomos invadidos por momentos de empatia humana e paixão desesperada por estas duas crianças.

O padeiro que os encontrou e abraçou, dias depois teve este desabafo: estas crianças viviam com pessoas más e nasceram hoje para a vida.

Oxalá que tenham nascido para a vida. Merecem um futuro melhor e ensinaram-nos a recuperar os bons sentimentos que ainda temos, apesar do mundo em que vivemos o negar. O seu infortúnio fez-nos recuar para o infortúnio de muitas outras crianças do nosso país. Infelizmente, muitas acabaram da pior maneira: maltratados e mortos com violência. Se aprendermos a estar atentos e a cuidar melhor de todas as crianças, podemos ter Futuro e Esperança, desde que não deixemos que nos endureçam os sentidos.

Se andares por aí, Deus, peço-Te que estejas mais atento. Não sei se consigo perdoar a tua distração com Rui Pedro, Madeleine, Joana, Valentina, Jéssica, Cláudia, Lara e tantos meninos e meninas. Por favor, cuida destas crianças e acolhe no Teu regaço todos os meninos e meninas do mundo.

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