“Era dezembro. Fazia frio. Partiam.”


(Excerto de ‘Um Comboio de Vidas Suspensas’.)
Muito antes da alvorada, já a praça de armas do Forte de Santiago da Barra tinha movimento de gente fardada no interior das grossas muralhas graníticas. Os militares, ensonados, arrastavam-se até junto de cada uma das secções que compunham as camaratas e armazéns. Tontos de sono, atropelavam-se com mantas e lençóis debaixo dos braços, a caminho dos depósitos de material de guerra e aquartelamento, para proceder ao abate dos últimos artigos utilizados durante o IAO — Instrução de Aperfeiçoamento Operacional.
Os retardatários, quase sempre os mais “espertos” ou despassarados, por não terem dado baixa no dia anterior do material, que julgavam perdido, tinham passado as últimas horas em busca do mesmo. Cada um deles, para além da roupa de cama, levava outros equipamentos de guerra como bornais, cantis, cartucheiras, uma ou outra G3 que alguém escondera na véspera por brincadeira. A falta de um artigo impedia-os de receber o pré nos próximos meses. Dependendo do valor do equipamento, assim podiam estar mais ou menos tempo sem dinheiro. O pouco que recebiam mensalmente era insuficiente, por isso mesmo um luxo, que os impedia de beber umas quantas Cucas ao longo de cada mês nos próximos anos. As cervejas Sagres, bebidas com o dinheiro dos pais, amigos e camaradas, depressa seriam substituídas por luxuosas Cucas.
Enquanto uns entravam no refeitório para o café deslavado da manhã, outros erravam pela parada com grandes sacos de lona às costas e aglomeravam-se em pequenos grupos, dispersos pelos cantos mais abrigados das temperaturas gélidas. Os blusões, apesar de grossos, não eram o suficiente para os resguardar do frio intenso daquele primeiro dia de dezembro. Procuravam combatê-lo batendo com as grossas botas no chão, saltitando ritmicamente, enquanto assopravam o calor do bafo quente para as conchas das mãos unidas junto da boca. Um comboio de Berliets estava estacionado num dos extremos da praça de armas e aguardava a hora de voltar à vida.
Alguns militares, apesar do frio cortante que se fazia sentir, aventuraram-se a subir para o largo corredor de pedra, no cimo do paredão, que circundava a bordadura amuralhada da fortaleza. Contemplativos, deixavam que os olhos se estendessem, vadios, para além, para a margem do mar. Atraía-os a rebentação do Atlântico a desfazer-se em enormes castelos de espuma fosforescente que subia até à muralha de sustentação das águas, galgando-a, vindo a morrer nos terrenos baldios.
No cais, abrigados e protegidos pelos paredões do Atlântico, junto à foz do Lima, pequenos e grandes barcos pesqueiros baloiçavam com violência, presos pelo cânhamo do cordame aos sólidos cabeços de amarração, em ferro, enfileirados a intervalos regulares, ao longo da muralha. As canhoneiras das muralhas da fortaleza, onde outrora estavam colocadas as bocas de fogo da artilharia que protegia a cidade dos piratas e outros navios atacantes, vindos do norte da Europa e dos lados de Castela, estavam colocadas estrategicamente de forma a bombardeá-los sempre que se aproximavam demais. Delas vislumbrava-se o horizonte deslumbrante do mar. Quando os dias estavam claros, enxergava-se uma toalha líquida e contínua até se perder na vastidão infinda. Havia fascínio na contemplação das águas furiosas e revoltas. A linha do horizonte aparecia e desaparecia por detrás das espessas neblinas matinais empurradas pelo vento. Os minutos escoavam-se rapidamente e lá em cima ouviam-se os gritos dos que estavam na cercadura da parada.
— Vamos embora… Bora, bora, bora lá, seus toleirões! Todos para a formatura… toca a formar… Rápido… Rápido, rápido! Vocês, aí em cima, desçam também… Já, já, já! De que estão à espera? Depressa! Toca a correr!… Está a formar!… Ráaapido!
Os homens começaram por se deslocar devagar, depois em passo rápido e acabaram por correr para o centro da parada. Em pouco tempo a formatura estava feita. Seria, talvez, uma das últimas na metrópole.
Feita a chamada, todos estavam presentes. Em bichinha de pirilau, foram encaminhados para as pesadas e ruidosas Berliets. Aos ombros, transportavam, derreados, enormes sacos militares de lona, tipo trouxa, onde tinham a vida atulhada para dois anos. À medida que iam enchendo uma Berliet, passavam para a seguinte. As caixas de carga estavam exageradamente abarrotadas com jovens que carregavam sacos, e se agarravam a eles, na sua maioria entre os dezoito e os vinte e um anos. Eram novos demais para serem legalmente adultos! Adultos o suficiente para fazerem a guerra com responsabilidade e amor à Pátria. Necessitavam da aprovação do pai, e só deste, para casarem; do padre para atestar o caráter e altos valores morais de pessoas de bem; do regedor para certificar a lealdade à Pátria, assim como as qualidades de cidadania. Mas não precisavam de quem os avalizasse para a competência do exercício da guerra, já que a nação respondia e atestava por eles. E deles cuidava até atingirem a maioridade aos vinte e um anos. E por eles continuaria a zelar para além dos vinte e um. Especialmente se fossem descuidados no exercício de ideias e opiniões que pusessem em causa os bons costumes: ser obediente, servir a Pátria, respeitar respeitosamente os preceitos da Santa Madre Igreja, amar a Deus.
O frio apertava e aconchegavam-se uns aos outros, como se fossem para-ventos, para se protegerem da brisa marítima cortante. Cada um procurava obter o calor do corpo do outro. Os graduados, todos milicianos, circulavam por entre as viaturas, procurando, eles próprios, aquecerem-se, enquanto verificavam se tudo estava em ordem. Apesar do controlo da chamada, viam-se ainda alguns sacos sem dono, encostados às paredes das casernas e depósitos de material de guerra.
— Quem foram os despassarados que deixaram ali os sacos?
Olhavam uns para os outros, até que um deles respondeu:
— É meu! — um soldado saltou ligeiro de uma Berliet para o recuperar.
— És sempre o mesmo cabeça de vento!
Feita a recolha, ficaram ainda mais quatro ou cinco abandonados, dispersos, sem que ninguém os reclamasse. Os graduados conferenciavam entre si e lançavam gritos para o ar em busca dos donos. Parecia que ninguém estava interessado em os reclamar. Um deles rugiu em direção da casa da guarda e ordenou a um piquete que recolhesse os sacos e os entregasse ao quarteleiro. Entretanto, dois furriéis tinham caminhado para o grupo de edifícios das casernas para se certificarem se haveria alguém lá dentro. Quase ao mesmo tempo, apareceu um soldado à porta de uma das casernas que, de volta das calças, procurava abotoar desajeitadamente os botões da farda, e gritou:
— É meu! É meu! Deu-me uma dor de barriga tão grande que tive de ir cagar. Estão mais lá dentro nas sentinas.
Ouviu-se um coro de gargalhadas que, apesar da tensão do momento, o caricato da situação desencadeou. O caso não era para menos: o espanto estava em serem apenas uns quantos com vontade de se aliviarem àquela hora da manhã. Uma diarreia geral seria talvez o mais apropriado, dada a tensão que pairava no ar. O graduado, incapaz de suster o riso, entre o divertido e o sério, foi-se a ele e aplicou-lhe um carinhoso calduço na nuca:
— Vai lá para a Berliet… Depressa, meu cagão! E vê lá se metes uma rolha no cu…
