
Nos últimos anos, palavras como resiliência, dar corda aos sapatos, ganga ideológica, almofada financeira, linhas vermelhas, bazuca europeia, linhas vermelhas e perceções entraram definitivamente na moda e no mundo dos políticos. Se contas certas, almofada financeira e bazuca europeia ficaram coladas aos governos PS — principalmente a Medina e Costa, como sinónimos de controlo, rigor orçamental e aproveitamento dos dinheiros que chegavam de Bruxelas —, já perceções, resiliência, dar corda aos sapatos e ganga ideológica estão ligadas aos governos PSD, principalmente a Montenegro e a uma certa casta governativa mais aguerrida.
Gosto das contas certas; já não gosto muito das perceções. Nem de resiliência. As linhas vermelhas foram usadas e abusadas nas campanhas eleitorais, principalmente entre o PS e o PSD na questão do Chega. Os governos têm tendência para escolherem as palavras que melhor definem a ação governativa. Os governos PS usaram-nas e agora também os governos do PSD as escolhem e utilizam. Quando os executivos escolhem as palavras, não o fazem inocentemente. À semelhança das eleições, também têm na ação governativa uma equipa técnica na retaguarda para os ensinar a cuidar da imagem, da postura e dos dizeres em público e nos meios de comunicação.
O Dicionário da Direita: Resiliência, Sapatos e Ganga
Parece, contudo, que esta equipa não está a fazer bem o seu trabalho nos dois governos PSD. Resiliência apela, simultaneamente, à capacidade de resistir, reagir e superar o caos, as adversidades e as crises de uma forma positiva. Resiliência é o que não falta ao povo português, principalmente quando tem de se deslocar aos hospitais, procurar casa ou buscar justiça. “Dar corda aos sapatos” ou “fazer o seu caminho” são expressões popularuchas e que caem bem. Quem as usa procura passar uma imagem de eficácia e, ao mesmo tempo, convida os outros a fazerem o mesmo: venham daí! Vamos embora, acompanhem-me. De que esperam? Vamos, caramba!
A “Ganga ideológica” é ainda mais grave. Não só é uma expressão que remete para a segregação, como é aproveitada para desqualificar as políticas anteriores que procuravam resolver problemas na habitação e saúde. As reversões políticas da “ganga” são justificadas com medidas de bom senso e pragmatismo, sem preconceitos ideológicos.
O Escudo das Estatísticas Europeias
As perceções são a palavra do momento. Pelo menos têm uma virtude: são um bom escudo e desvalorizam as queixas, sendo sustentadas por argumentos estatísticos europeus: quer pela forma como a Europa nos perceciona, quer pela forma como nós nos comparamos com ela. “E estamos muito melhor que eles em algumas áreas, principalmente no crescimento económico”. Problemas com a saúde, a justiça, a habitação, o trabalho, o aumento da pobreza, não passam de perceções tecidas pela oposição e comunicação social.
Um Executivo Partido em Três
Mas o governo também é culpado no modo como percecionamos a governação, a começar pelos ministros. De facto, há mais de três governos dentro da mesma governação. A ação política de alguns ministros é mais ou menos complementada com uma atuação técnica, profissional e uma narrativa bem estruturada, quer quanto ao modo como é transmitida, quer quanto à execução prática. Ministros como Castro Almeida, Rita Júdice, Luís Neves e Fernando Alexandre procuram fazer o seu caminho sem muitas ondas e com um discurso consistente e coerente. Até Maria da Graça Carvalho — depois de uma declaração infeliz, num momento ainda mais infeliz, quando decorria a festa do Pontal com o país a arder — é percecionada como uma ministra que consegue gerar empatia. É direta, esclarecida e focada em resultados. O mesmo se pode dizer de Castro Almeida, Fernando Alexandre, Luís Neves e Rita Júdice: são vistos com empatia, discretos, profissionais, dialogantes e interessados em resolver problemas sem ruído.
Quanto aos outros ministros, há para todos os gostos: desde os que fazem muito não fazendo nada, os que falam muito estando melhores calados, até aos chamados “cães de fila” e os que nem com azeite e vinagre. Nestes últimos, entram perfeitamente a ministra da saúde e o ministro da defesa.
Entradas de Leão, Saídas de Ovelha
Como foi possível escolher uma ministra da saúde que fez entradas de leão para acabar com postura de ovelha ressabiada? O que passou pela cabeça desta mulher para destruir toda uma estrutura que estava em andamento há dois anos para reestruturar e otimizar o sistema de saúde nacional? Tal como em Régio: a sua vida foi um vendaval que se soltou, uma onda que se levantou, não sabe para onde vai nem por onde vai… mas vai fazendo o seu caminho. E, de facto, destruiu o SNS em noventa dias, deitando por terra o trabalho que estava a ser feito por Fernando Araújo. Senhora Ministra, com tanta sapiência, não sabe que não se destrói o que foi feito: corrige-se? Não se manda ninguém embora sem se saber o que se passa. Se já estávamos mal, ficamos piores.
Já as Forças Armadas tiveram de se haver com o melhor que lhes podia ser dado: um ministro impreparado e dândi. Um ministro que se engasga com o “Tratado do Atlético Norte”, é um ministro que conhece profundamente a NATO. Fiz a tropa e andei pelo ultramar e, apesar de profundamente revoltado com a política e as forças armadas de então, não deixo de me sentir mal representado por um ministro da defesa que, apesar dos fatos de corte aristocrático, não sabe “vestir o fato da função”.
O Paternalismo e a Síndrome de Calimero
Montenegro é o primeiro-ministro e o responsável pela escolha do seu grupo de trabalho. Teve muitos anos para se preparar e escolher. Chamar o Cristiano Ronaldo em seu socorro como exemplo a imitar, convidar os portugueses a desprenderem-se de uma mentalidade do “deixa andar”, terem uma atitude de superação… Paternalista? Já lá vai o tempo do padre cura das aldeias da minha infância: incentivavam, moralizavam e pediam humildade e espírito de sacrifício a quem quisesse alcançar a felicidade suprema. No entanto, alguns desses padres, e digo apenas alguns, tinham em casa uma irmã e sobrinhos suspeitos, mesa abastada entre a miséria, alguma promiscuidade e devassidão nos confessionários e sacristias. Montenegro, com tantos incentivos, perceções e convites à superação e resiliência, faz-me lembrar a figurinha simpática do pintainho feio, o Calimero: a culpa não é minha, é do governo anterior e dos portugueses.
É uma injustiça, ninguém gosta de mim.