
Excerto de abertura de um conto sobre a vida no aquartelamento, onde a lentidão das tardes convive com a tensão constante de uma guerra sempre próxima.
Um dia mais passou e ao passar
Que pensei ou li, que foi criado?
Nada! Outro dia passou desperdiçado!
…
Nada fiz. O tempo me fugiu
Alexandre Search
Os cadeirões de madeira, se bem que duros, eram confortáveis e cómodos. A curvatura das aduelas ajustava-se ao serpentear do corpo e tinha o formato da barriga dos barris — cheios de vinho envinagrado bebido às refeições —, enviados do Puto. Quando estavam vazios, desmantelavam-se e aproveitavam-se as ripas para fazer bancos corridos e cadeirões individuais. Nos cadeirões, cada um de nós aguentava estoicamente estirado sobre ele, no alpendre da messe de sargentos, uma tarde de intenso calor. Protegidos do sol pelo largo beiral, mal adaptados ao voo de corpulentos insetos, ocupávamos, com indolência, o tempo a rememorar recordações ainda frescas. Ao mesmo tempo que praguejávamos contra os insetos, íamos habituando o olhar àquela paisagem, para além do arame farpado circundante, ao horizonte verde, plano, largo, contínuo, longínquo.
O olhar
O olhar percorria alternadamente um e outro lado da estrada. Para além dela, ficava, mesmo defronte, a porta de armas do aquartelamento abarracado. Divagava vazio, desprovido de atenção, curiosidade ou interesse pelos pavilhões. No entanto, os pavilhões estavam dispostos com alguma ordem. Os blocos dispersos dos serviços formavam o comando do batalhão: enfermaria, posto médico, comando da companhia, secretaria do batalhão e camaratas dos soldados, sargentos e oficiais. No meio das construções abria-se um espaçoso terreiro e no centro erguia-se, solitário, um prumo de ferro redondo com uma bandeira hasteada no topo.
O mastro elevava-se orgulhosamente plantado no centro de um pequeno e bem arranjado canteiro circular de flores e outras plantas, cuidadosamente tratado. Quer fosse na época das chuvas ou do cacimbo, não havia vestígios de ervas daninhas ou plantas invasoras que comprometessem o trabalho diário dos capinadores — assim fosse em Portugal, do Minho a Timor, onde elas abundavam. Para lá deste brinco, estendia-se a parada. Todos os dias, um pequeno grupo de militares de serviço formava um corpo de guarda de honra, para o hastear e arriar da bandeira, de manhã e ao final do dia, acompanhado pelo toque do clarim. As formaturas gerais tinham lugar às horas das três refeições diárias. Numa delas eram comunicados os assuntos diários da companhia. Quando era dia de chegada do correio, todos se juntavam ansiosos à formatura para o acontecimento mais importante dos últimos dias: a distribuição das cartas.
A bandeira
Um pouco mais atrás, no interior do perímetro do arame farpado, ficavam as oficinas das viaturas militares e, ao lado, o cemitério do material de guerra: viaturas abandonadas, sem qualquer hipótese de recuperação, armamento e ferro velho retorcido no decurso de ações ofensivas e defensivas desenvolvidas no mato. Acidentadas umas, alvejadas outras, ali jaziam monstros de ferro retorcido e disforme, lembrando animais couraçados pré-históricos. Em frente deste cemitério, num pequeno espaço isolado e discreto, escondia-se o centro de transmissões com um posto de rádio, centro de mensagens, centro cripto e oficina de reparações dos equipamentos de transmissões.
O posto de rádio
O posto de rádio era o centro nevrálgico das comunicações do batalhão com atividade contínua. Da sua operacionalidade dependia, para além do apoio logístico ao regular funcionamento do dia a dia dos militares e respetivos meios de subsistência, a vida de muita gente em atividades pacíficas e bélicas. A sua importância revelava-se em ações que se desenvolviam no terreno; no apoio dado à movimentação de meios humanos e materiais; na resposta pronta para formar grupos de apoio em situações de emergência ou prestação de socorro. As transmissões formavam uma teia tentacular cuja missão era assegurar a ligação nas operações executadas sob o comando do batalhão, ao mesmo tempo que mantinham o contacto com as diversas companhias, pelotões adidos ou destacados para locais estratégicos: GE, Flechas, grupos de morteiros e outras secções ou grupos de combate. Essa teia garantia, assim, as comunicações entre os diversos intervenientes e sustentava a estratégia operacional do comando. GE e Flechas eram grupos de tropa local, habitualmente constituídos por elementos negros. Enquanto os Flechas estavam subordinados ao comando da PIDE em ações de intervenção ofensiva e atuavam de uma forma mais ou menos independente da tropa — embora em diálogo, para não haver sobreposição de ações —, os GE eram grupos especiais de combate adstritos às companhias e participavam nas missões em conjunto com a tropa. Com as comunicações, procurava-se que ninguém ficasse isolado, estivesse onde estivesse. Assim, cada grupo de combate que saísse, fosse em missão de patrulhamento pacífico ou mais interventivo na perseguição de grupos inimigos na zona militar, levava sempre consigo um rádio, habitualmente um Racal, que o colocava em contacto com a unidade de que dependia.
Além de assegurar as comunicações no interior do próprio batalhão, mantinha as ligações rotineiras entre comandos de batalhões adjacentes e, a um nível superior, mantinha as comunicações com o comando do sector, cuja missão era difundir as ordens superiores e coordenar superiormente as tropas instaladas no terreno e dentro do âmbito do sector.
O posto de rádio era uma célula interligada com outras, espalhadas pelo território, formando uma gigantesca teia viva e dinâmica, capaz de interagir e fazer chegar com rapidez uma ordem ou um pedido de ajuda a qualquer ponto dessa teia espalhada pelo território.
A fronteira
A circundar este perímetro, e já na vizinhança dos limites do aquartelamento, estavam os ninhos dos equipamentos de combate: morteiros, metralhadoras e abrigos de proteção. A poucos metros de distância, erguiam-se barreiras de arame farpado: último obstáculo de defesa do aquartelamento em caso de assalto de forças inimigas.
Em alguns casos, onde o combate era mais intenso ou se previa infiltração inimiga com tropa organizada a partir das fronteiras, havia barreiras de armamento de artilharia pesada. Uma das fragilidades encontrava-se no Norte, quando se suspeitou de uma invasão da FNLA, de Holden Roberto, apoiada pela tropa zairense. Maquela do Zombo seria o nosso segundo aquartelamento quando rodámos para o Norte, no segundo ano. Era fortificado, tinha reforço de tropas para morteiros e peças de artilharia ligeira e pesada, ficava a poucos quilómetros da fronteira e contava com três linhas de defesa: uma na fronteira, outra com artilharia entre Maquela e o Zaire, e, finalmente, a última com ordens para resistir em Maquela. Para além disto, contava com a ajuda do apoio aéreo a partir de Negage. Os rumores de uma possível invasão eram frequentes.