
Há um livro que tenho na gaveta sobre os Descobrimentos. Não sobre a gesta heróica que nos ensinaram na escola, mas sobre os homens que a fizeram — os pilotos, os marinheiros, os que pesavam o sol com um astrolábio e tentavam aprender a falar com as estrelas do Sul porque as do Norte já não chegavam para os guiar.
O excerto que partilho hoje encontra-os ancorados algures na costa de África. Estão a reparar as naus, a contar léguas, a olhar para um céu que ainda não conhecem. Diogo Cão quer registar tudo. João Santiago sabe que o tempo é a única resposta.
Não sei quando este livro verá a luz. Mas estas páginas pedem para ser lidas.
Os homens que pesavam o sol e aprendiam a falar com as estrelas do Sul.

Ancorados e bem protegidos, aproveitaram para folgar e fazer uma beneficiação geral à nau. Faziam aguada, colocavam lenha, limpavam o casco das caravelas de limos e teredo, abundante nas águas quentes e bastante prejudicial para os cascos de madeira. Corrigiam as calafetagens, substituíam o massame mais desgastado, reparavam as velas e a mastreação. Era toda uma azáfama de estaleiro fora do reino, a que as tripulações estavam habituadas sempre que necessário. Para as longínquas viagens, aprenderam a sair do reino com toda uma quantidade de aparelhos de substituição — até mesmo em alto mar, se os temporais não afundassem antes as caravelas em perigo. Era uma luta pela sobrevivência a que todos estavam sujeitos. O prémio, mais que tudo, era a manutenção da vida.
Devidamente aparelhados, zarparam. Ao cair de uma noite, passaram por uma foz de três rios que aparentavam ser os braços de um, visto de longe. No horizonte, acabava de se deitar o sol, deixando para trás um céu largo e profundo de cores de fogo. Os marinheiros largaram as tarefas e debruçaram-se sobre as amuradas:
— Parece que está a arder!
— As chamas do inferno soltaram-se!
Diogo parou de tomar notas e mandou que lhe trouxessem o astrolábio para pesar o sol. Foi só quando pegou no instrumento que se lembrou que não havia sol para pesar. Na ânsia de registar o momento, fora iludido pelo deslumbramento dos próprios olhos.
Entretanto a noite caiu rapidamente e as cores foram-se desvanecendo. Dormia a noite, acordavam as estrelas. Diogo e Santiago procuravam penetrar naquele céu de estrelas novas, de nariz para o ar, no marulhar silencioso da noite. Conheciam o céu acima do equador, conheciam melhor o céu da Guiné. Mas no Sul tudo era novo: as estrelas, a terra, as gentes, os animais, as árvores das florestas, os caprichos do mar.
Diogo lembrava-se do rei, da voz familiar que lhe pusera as mãos nos ombros como se fosse o seu melhor amigo:
— Falai com elas, Diogo, elas trazem-vos de volta.
— Como, Santiago, como posso falar com elas se as não conheço?
— Naveguemos para Sul, até que nos conheçam bem. Alguma delas há de falar.
Tanto mar vencido. De Lisboa até ao local onde se encontravam tinham caído cinquenta e dois graus sofridos e cheios de surpresas — novecentas e dez léguas em linha direta, duas mil contadas com todos os contornos da costa, os desvios, as voltas de bolina, o ziguezague interminável para vencer a força dos ventos contrários. Tudo percorrido em pouco mais de sete meses, numa casca de nós a vogar com uma tripulação de vinte e poucos homens.
Gente com braços rijos como troncos de buxo, palmas das mãos salgadas e gretadas, plantas dos pés calejadas de cascão duro. Dias mal comidos, noites mal dormidas, perturbadas pelos roncos dos companheiros e as carícias de ratos e baratas, que nem o doce balanço da nau conseguia remediar.
E tudo pela aventura do desconhecido.