
Portugal: Pequeno mas imenso
Portugal é um país pequeno, mas com recantos fabulosos. Entre os cerca de 550 km de comprimento e os 200 de largura, podem-se percorrer, facilmente, as duas distâncias num só dia de carro. Podemos partir de Faro manhã cedo e almoçar em Coimbra, para dormir em Melgaço ao final do dia. Embora este percurso seja um bocado cansativo, acaba por ser atenuado pelas paisagens laterais. No final, uma caneca de vinho verde fresco recupera-nos da viagem.
A travessia, qualquer que seja, de Norte a Sul, é calma e suave. Para qualquer delas, nada melhor que ir com o pé mais leve para desfrutar das vistas e do almoço. Já próximos da fronteira — ou mesmo em cima dela — podemos preparar os dias seguintes em torno de um bom prato e um copo de qualquer vinho, já que todo o vinho de Portugal é cobiçado.
O sabor da liberdade
Nesta moldura de 500 por 200 km, temos muito por onde escolher. Portugal é pequeno, mas ao mesmo tempo grande demais para quem o queira saborear. Temos de tudo: mais sol que chuva, tanta planície como montanha, muita praia e um mar imenso. E em torno de tudo isto, tantas variedades de comida quantos os paladares — desde os mais rebeldes aos mais sofisticados — onde não falta o ritual dos melhores vinhos que o país oferece ao mundo.
Se a mesa é rica, não o são menos as areias douradas, as águas bravas do Norte e as brandas do Sul, o sol que gosta de acariciar os corpos, o verde das montanhas e a secura das planícies. Até o património histórico dos povos primitivos e dos tempos modernos é uma joia preciosa. E tudo concentrado num pequeno retângulo que soube dar mundos ao mundo.
O espanto e o desleixo
Em Portugal não há rotina nem monotonia. Há, sim, o espanto no olhar de quem nos visita, pois nunca imaginou que o local onde a terra acaba e o mar começa pudesse esconder um tesouro tão cobiçado, embora tão maltratado por aqueles que por cá vão vivendo.
Neste início de maio, fui mais uma vez até à serra. Nos últimos anos, de cada vez que lá vou, sou surpreendido pela incúria: do governo central, porque se esqueceu de que existe Portugal no interior do país; e dos governadores locais, porque são incapazes de se mobilizarem para protegerem as populações e se constituírem em grupos de pressão. Nem se trata apenas de regionalização; trata-se de se organizarem por unidades regionais concelhias, com geografia semelhante e interesses comuns.

O marasmo histórico
Enquanto as duas primeiras dinastias tinham objetivos reais — construir um país e projetá-lo para o mundo — a partir de então tudo se afundou num marasmo do “deixa andar”. Daí para cá, tirando um ou outro objetivo temporário de reconstrução, tudo não passou de um imenso vazio nacional de empobrecimento e desleixo desde o século XVII.
O roteiro da Serra do Açor
Já numa aldeia de Pampilhosa da Serra, fui almoçar a Fajão. A intenção era ir e voltar. Todavia, depois de um bom almoço serrano — javali e cabrito no forno com castanhas — resolvemos dar uma volta pela região. O circuito foi quase todo em torno da Serra do Açor. Para quem não conheça, deixo aqui o trajeto, bonito e de arregalar o olho: Aradas, Fajão, Alto da Castanheira, Camba, Barragem do Alto Ceira, de volta ao Alto da Castanheira, descida para Coja, Tábua, Oliveira do Hospital, Avô, Pomares, Soito da Ruiva, Alto da Fórnia, Covanca, Unhais-o-Velho e, finalmente, Aradas.
Para quem goste de andar pelos oitocentos e mil e duzentos metros de altitude, há a crista de rocha dura que começa nas imediações de Dornelas e acaba na zona de Oleiros. Ao longo dessa crista existem aldeias com casas de xisto construídas em minúsculos vales soalheiros, junto de rios e ribeiros. No meio deste sistema montanhoso, que abrange vários concelhos, há locais selvagens e humanos tão primitivos como as cascatas da Fraga da Pena, a Mata da Margaraça, as barragens de Santa Luzia e do Alto Ceira, Piódão, Foz de Égua e o Santuário de Nossa Senhora das Preces…
A montanha vestida de viúva
De toda esta beleza natural — do verde florestal ao lilás do magoriço, do amarelo das maias ao algodão das estevas — resta apenas o luto. Da crista de quartzo que resiste há milhões de anos à erosão furiosa, dos caminhos agrestes de “pé posto”, do vento cortante, do frio e do calor abrasador, sobra a cinza das serras queimadas. O último fogo, o do verão passado, acabou por lhe dar o toque de viúva triste.
Vale a pena viajar por estes lugares de sonho para ver até que ponto vai o desleixo. Mais revoltado fiquei ao saber que este último incêndio poderia ter sido detido numa primeira fase, quando caminhou do Piódão para o Alto da Fórnia, e numa segunda, quando desceu folgazão e mortiço durante três dias do Picoto para as Meãs. Ninguém fez nada! E nem deixou fazer! Pior ainda: não deixaram gastar a água dos autotanques porque não tinham autorização para a usar nem para a dar! A revolta dos aldeões e o falhanço do Estado foi visível no povo da Malhada do Rei. Enquanto o fogo progredia, organizou-se e foi ao encontro dele. A meio caminho, as brigadas da GNR e dos Bombeiros tentaram travá-los: «Ninguém passa! Estamos aqui para vos proteger e as vossas casas.»
Os populares forçaram a passagem e foram pegá-lo de caras, a meia encosta, quando este se preparava para tomar a aldeia. Com pás, picaretas, enxadas e paus, fizeram o que os bombeiros se recusaram a fazer: salvar o pinhal local e a aldeia. Infelizmente, não conseguiram salvar tudo. Arderam casas em três distritos: Coimbra, Guarda e Castelo Branco.
Curiosamente, em Lisboa, enquanto via o fogo a lamber a aldeia, vi na televisão os autotanques e os bombeiros estacionados em torno da capela, isolada a meia encosta e sem vegetação em redor. Estavam ali! Quem defendeu as casas da aldeia, e a minha, foram os aldeões e os povos vizinhos.
A ausência de consequências
Já foram produzidos muitos relatórios a culparem a “violência do fogo”. Já ouvi responsáveis a dizerem que “não havia combate possível” ou que “fizeram tudo para poupar habitações”. Mas ainda não ouvi ninguém pedir desculpa pela incompetência — competentes, sim, no “deixa arder”.
Com tantos ministros, diretores e chefes centrais e regionais, não houve ninguém que se lembrasse de levantar um, apenas um, um só que fosse, processo disciplinar por incompetência? Durante toda a minha vida tive de prestar contas; se algo corria mal, havia consequências. Não há consequências? Para este governo, não. Reage tarde e a más horas. Em tempo de férias não se tomam decisões, desculpa-se com a violência da catástrofe.
Uma esperança cristalina
Venho da minha serra triste porque a vejo vestida de negro, com um vestido tecido de cinzas e os ribeiros assoreados. Será que daqui por cinco anos a verei vestida de eucaliptos? Meu Deus! Que novo desastre ocorrerá?
Ainda consegui ver um naco de frescura cristalina. Recuso-me a deixar que a raiva tome conta de mim. Deixo esta mensagem de esperança na esperança de que nenhum eucalipto me tire o encanto desta transparência. Não parece, mas na foto vêem-se os xistos e as pedrinhas um metro abaixo do nível da água. Às vezes até parece que Deus se recreia pela serra: menos os deuses terrestres.