Do Salto na Raia à Lama de Champigny

Dia tranquilo à beira da Praia de La Concha, com vista para o mar e as colinas.
Dia tranquilo à beira da Praia de La Concha, com vista para o mar e as colinas.

Os portugueses que fugiram da guerra e da miséria pelos caminhos do Norte.

Há dias, diante da baía da Concha, pensei nos portugueses que fugiram da guerra e da miséria, que atravessaram estas montanhas a salto. Eram os tempos de comer o pão que o diabo amassou.

«Tempos difíceis criam homens fortes; homens fortes criam tempos fáceis; tempos fáceis criam homens fracos; e homens fracos criam tempos difíceis.»

Quando encontro pequenos ditos de que gosto, transcrevo e guardo. Mas nem sempre acontece. Muitas e belas frases vão-se perdendo nos dias que se seguem.

Conheço mal a Espanha, aqui ao lado. Não sei se tem a ver com o dito português de que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Certo é que conheço mal os grandes centros históricos; o Norte foi sempre de passagem e a abrir. Mas por onde passei, ficou a vontade de repetir. Recordo San Sebastián, Bilbau, Astúrias e Galiza. Nas Astúrias deixei os olhos; na Galiza tive o primeiro impacto do que poderia ter sido o português dos nossos avós.

A Memória na Baía da Concha

Esta ida a San Sebastián e Bilbau trouxe-me à memória Irún, Hendaia e Bordéus, quando por lá passei com olhos de viajante despreocupado. Foi na década de oitenta. Diante de um mar soberbo e calmo, e um dia alegre e brilhante, os meus olhos recuaram de repente para as minhas vivências mais antigas. Nelas, relembrei, não os meus, mas os caminhos de muitos portugueses dos anos sessenta e setenta.

Quando percorri aquelas estradas modernas que sobem e descem montanhas, revisitei amigos, familiares e milhares de jovens em fuga da miséria e da guerra colonial por estradas rugosas e caminhos de pé posto.

O “Passaporte de Coelho” e a Fuga do Inferno

Por muita boa vontade que tenha, não consigo imaginar como centenas de milhares de portugueses fugiram com “Passaporte de Coelho” pelas rotas do Minho, Chaves e Bragança, para se embrenharem nas veredas do norte de Espanha e aterrarem nos bidonvilles de Paris.

Fizeram tudo para não serem caçados pela PIDE e Guarda Fiscal; nem pela Guardia Civil de Franco. Se fossem apanhados cá, eram torturados; se lá, pelos de Franco. De seguida, eram entregues aos pides para nova tortura. Se não fossem apanhados, palmilhavam os trilhos do inferno. Partiam endividados. Cinco escudos a um, dez a outro… Tantas vezes uma nota de vinte escudos passava de uma mão necessitada para outra desesperada, com sonhos de pão e liberdade.

O País que se Conheceu nas Colónias

A fuga compunha-se de pais de família e jovens que fugiam da guerra. E ainda dos que tinham acabado de a fazer. Estes não tinham fugido à guerra, fugiam à miséria. Foi nas colónias que o país real se deu a conhecer: todos conheciam todos. Foi lá que a democracia deu os primeiros passos. Tanto o doutor como o pé descalço viviam, conviviam e partilhavam um dia de cada vez.

Os horizontes da maioria das pessoas não iam além da aldeia. E os do país, ou se perdiam no mar, ou nem sequer atravessavam a raia.

O Gado Humano e a Solidariedade da Miséria

Em Bilbau, tentei imaginar o que era uma lixeira. Ver emigrantes abandonados pelos “passadores do conto de reis”, com notas de vinte, conluiados com as redes de Espanha. À volta de uma lixeira, lutavam por uma côdea que enganasse a fome. Eram transportados em carrinhas, misturados com o gado, agasalhados pela palha, até chegarem a uma pensão escura para irem passando de mão em mão até França.

Os mais felizes entravam para um bidonville, um bairro de casas de lata e chapas de zinco com arruamentos de lama. E eram felizes porque todos se ajudavam. Champigny-sur-Marne, com cerca de quinze mil portugueses, acabava por ser melhor do que as aldeias de Portugal. Ali viviam, casavam, enriqueciam e vinham construir um bocado de casa em cada ano, piso a piso, tijolo a tijolo. A miséria entre familiares e amigos era solidária.

O Silêncio do Passado

As gerações de emigrantes e dos homens que fizeram a guerra podiam viver na miséria, mas tinham sonhos de pão e liberdade. E ambos têm uma coisa em comum: não gostam de falar do passado, ou se falam, é jocoso e romanceado.

Os tempos de hoje são outros. Melhores? Piores? Não sei. Sem ser emigrante, conheci as duas realidades, uma porque a vivi, a outra porque passou por perto. E também sei que vivemos num mundo de homens fracos que criam tempos difíceis.

Fim do Artigo

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Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

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Comentários de Leitores

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Armando Costa Salgado 12/08/2026 às 9:50
Adorei o artigo. Este minhoto escreve muito bem. Dá gosto acompanhar a sua escrita.

Welfare Fernando Vieira 21/03/2026 às 21:04
Ótimo texto de interpretações errôneas que fazíamos em nossa juventude.

Paulo Rodrigues de Aguiar 19/03/2026 às 13:05
Gostei de todas as publicações, tenho interesse de me aprofundar nestes assuntos
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