Um diálogo proibido entre os corredores de Columbia e as trincheiras de sangue.
Em «Uma Diversão de Potestades», o conforto da Universidade de Columbia é estilhaçado pela invasão da Ucrânia e pelo massacre em Gaza. Enquanto o mundo discute mapas, um grupo de estudantes vê os seus países arder. Uns escolhem o patrocínio à distância, outros o regresso às armas.
O excerto que se segue expõe a fratura ética de quem olha para a guerra de frente: onde acaba a defesa e começa a barbárie? E, acima de tudo, que homens e mulheres regressam a casa depois de serem ensinados a desumanizar o ‘outro’?

A infantaria, equipada com equipamento de proteção e armas leves e ligeiras, estava subordinada aos comandantes de linha dura, profissionais de carreira, formados para matar, bons exemplos a seguir. Bem ou mal preparados, foram retirados das fábricas tecnológicas, universidades, colonatos e kibutzes para serem bons soldados, dedicados e obedientes às ordens para disparar cegamente no que mexesse. Desconhecedores das técnicas profissionais de combate, displicentes, medrosos e inconscientes, eram estimulados e empurrados por palavras de ordem para destruir e matar indiscriminadamente. «Quereis a barbárie ou a civilização? Força neles!»
— Num mês de guerra em Gaza, destruíram três vezes mais que nos dois meses de dois mil e catorze — esclareceu Sami.
— Poderá ser verdade o que dizes, mas olha que o Hamas também não cumpre com as regras da guerra, esconde-se por trás da densidade populacional e faz dos civis escudos humanos — respondeu Daniel mais zangado que indulgente.
— Se o fazem, aprenderam-no com os israelitas. Quando vão à Cisjordânia, escondem-se atrás dos carros e palestinianos enquanto matam e destroem as habitações — devolveu Sami que sabia muito bem qual era o comportamento do exército e dos colonos mascarados para não serem identificados.
— Ainda que se esconda, não é muito diferente de um governo que se aproveita de uma guerra para fugir à justiça — Esclareceu Ivan. — Que credibilidade pode ter um exército, uma nação, que em vez de negociar com um grupo terrorista, representativo de uma população explorada, bem ou mal, mantém as instituições de suporte à vida a funcionar? Um exército ou nação que vai à procura de vingança, sem procurar compreender as razões de fundo que conduzem à violência gratuita, não se pode dar ao luxo de responder levianamente com ações terroristas mais violentas.
— Se o fizer — respondeu Sami — é porque tem como horizonte de vitória a destruição das estruturas de suporte à vida de mais de dois milhões de pessoas; como desculpa, a eliminação do poder que as criou; como troféu, a aniquilação colateral dos milhares de civis; como serviço, o apartheid dos sobreviventes para serem explorados nas fábricas e campos.
— Se esses são os horizontes da nação e exército que a defende — continuou Shira — mais não faz do que perpetuar o terrorismo que os mais novos vão destilando com ódio e raiva porque nasceram e cresceram na visão da injustiça, porque foram tratados e abusados na carne sofredora; porque foram ficando sem pais, família, casas e amigos; porque ficaram sozinhos sem que alguém lhes acudisse ou estendesse uma mão generosa.
— Israel é o incunábulo do terrorismo internacional, sabe como alimentar, importar e exportar a hidra, auxiliada pelos aliados, para territórios nacionais. Sobretudo para os interesses judaicos e nações aliadas que fecham os olhos às ações dos profetas.
— Não digas disparates, Sami! Como é que uma nação que se defende de atos terroristas pode ser a origem do terrorismo? — Interrogou Daniel.
— Os discursos do poder político em prol dos militares para justificar a sua ação, defendendo-os de crimes de guerra, são ineficazes — esclareceu Shira. — Não basta dizer que afirmações hipócritas e mentirosas são atribuídas a gente sem uma gota de moralidade quando a prática o contradiz. Basta ver a quantidade de mortos de pessoal da ONU, jornalistas e organizações de apoio para constatar que o exército, cumprindo as ordens do poder político, desenvolveu uma prática de assassinato e desprezo pela vida humana. Equipados com uma couraça de ilegalidade amoral, perderam a noção do justo e injusto, e mais não fazem do que seguirem ordens sem consideração do bem e do mal, do justo e injusto, da vida do inseto ou humano, por mais violento e devasso que seja esse humano.
— Esse não foi o processo seguido pelos nazistas que gaseavam os corpos vivos para os queimarem nos fornos crematórios? — Perguntou Ivan. — A desumanização em Israel é terrivelmente assustadora. Nem os campos de refugiados de Al-Shati e Jabalia escaparam com centenas de mortos, e os vivos a serem obrigados a fugir para sul.
— Haverá algum estudo credível que diga como se comportam estes soldados desumanizados quando retomam a vida civil? Gostava de saber como se comportam socialmente na vida ativa — perguntou Sofia, mais para ela do que para os amigos.
— Também eu — responderam alguns.
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Este é apenas um vislumbre do embate ideológico e humano que atravessa as páginas de «Uma Diversão de Potestades». Uma narrativa onde a geopolítica deixa de ser uma notícia de jornal para se tornar carne, osso e dilema moral.

