Há encontros que nos obrigam a dissecar a anatomia da atração. O que se segue é uma reflexão sobre a complexidade do olhar e a harmonia desafinada das relações a dois.

Primeiro, o corpo que acende uma pequena chama. Depois, o olhar que pica como o voo da águia, obsessivo sobre o alvo. Mas será apenas a sensualidade que nos empurra para o outro?
No excerto desta semana de Madalena, mergulhamos na anatomia da atração — aquela que começa na graciosidade de uma curva e termina na cor da alma que transparece nos olhos. Uma reflexão sobre a harmonia (e as desafinações) da vida a dois, onde a perfeição é um sofrimento e a relação é uma orquestra sem maestro.
Excerto
Era a sua espontaneidade, a sua forma desabrida, o seu vocabulário solto e liberal, quando estava comigo, de que eu gostava. Mas também apreciava e gostava da mulher de etiqueta, do falar cuidado, do porte senhoril, sem ser distante, quando em sociedade ou nas suas relações profissionais. Não era só a sensualidade que me empurrava para a mulher. A sensualidade era apenas a cereja em cima do todo que ela é. Era o fetiche que fazia com que tudo funcionasse, ainda que houvesse carências nas demais áreas do ser que somos. O mundo das relações interpessoais é complexo e a relação a dois ainda mais. É uma orquestra simples sem maestro, mais complexa que a maior das orquestras com maestro. Ambos tocam os seus instrumentos únicos, homem ou mulher, para deles retirarem a harmonia rítmica perfeita, que embora com dissonâncias ocasionais, procuram encontrar o virtuosismo técnico para dedilharem a obra-prima das suas vidas, ainda que com uma ou outra desafinação durante a execução. Nenhuma obra nasce perfeita. A perfeição vai-se conseguindo depois de muitos erros e tentativas, com teimosia suficiente para ir aperfeiçoando o imperfeito. Escritores, pintores, músicos, escultores, tiveram de sofrer muito para alcançar a perfeição. A perfeição individual é difícil; a perfeição a dois é sofrimento; a perfeição coletiva é uma utopia: sem utopia não se constroem sociedades equilibradas e justas.
O que me empurrava, então, para a mulher? O que via nela para ser atraído por ela? Tudo começa pelo visual. Primeiro, aquilo que dá mais nas vistas, o corpo que acende, por qualquer razão obscura, uma pequena chama. Num relance de olhar, a vista cai nele, espraia-se pela graciosidade de toda aquela praia, vê curvas pronunciadas ou suaves, seja de frente, por trás ou perfil, e vai subindo o horizonte com o deleite de quem é surpreendido, pela primeira vez, pelo êxtase que exala da beleza do Beijo de Canova, ou Adão de Michelangelo. Interiormente, é o prazer dos olhos a passearem-se pela arte do modelador daquelas formas. De seguida, o olhar procura as imperfeições nas pernas, a paisagem envolvente das ancas, se vista de trás; se vista de frente, procura ser discreto e faz o mesmo levantamento, agora do peito e do pescoço para cima. É como se planasse sobre aquela visão com vontade de voltar atrás e repetir; é o voo da águia, lá no alto, a planar obsessivamente sobre o alvo. Tal como a águia pica no seu voo, bem-sucedido ou frustrado, também o olhar afunila nos pormenores, na forma das mãos, no modo de as manipular; na desenvoltura sensual do caminhar; na forma como o pescoço faz o caminho entre os ombros e a cabeça; como a pele alva ou trigueira suporta, projeta e dá proeminência a um rosto bem formado. Por fim, detém-se no rosto, com discrição e receio de ser surpreendido — os olhares são marotos, têm um sexto sentido, não vendo sabem que são observados, a curiosidade oprime, e os olhos direcionam-se, quase sempre, para olhos observadores —, logo na primeira oportunidade. Começa então uma busca incessante e pormenorizada da boca, da forma dela, do desenho dos lábios, do modo como sorri ou fala; os olhos são sempre as janelas escancaradas de todos e falam mais do que as palavras mais elaboradas de um qualquer Camões, que conhece os segredos da alma. As cores são diversas e a cor pode repelir, atrair, fascinar. Se a alma tem cor, quase sempre tem a cor dos olhos: tendencialmente alegres, tristes ou neutros. Vistos à distância, são uma chama débil e misteriosa que fascina: é como ouvir uma guitarra gemente, acompanhada por um fado sofrido, sentados a dois numa mesa com um copo de tinto e o tremeluzir da vela a puxar por nós. O queixo, que juntamente com o nariz, são adornos bem formados que compõem a beleza do conjunto. Finalmente, os cabelos, de todas as formas cores e feitios, são a moldura que encaixa e realça o rosto, direcionam o olhar para os ombros e o peito. O todo foi sendo esculpido com uma cuidada envolvência, com a harmonia delicada do conjunto. O mestre fica deslumbrado quando vê manifestada a luxúria da visão na perfeição do corpo esculpido com meiguice!
Foi tudo isto que Madalena despertou em mim.

Este tema e a história de Madalena estão desenvolvidos no livro disponível aqui. —> Madalena
