
Qualquer terramoto que aconteça em qualquer lado, traz-me sempre à memória lembranças e catástrofes antigas. Foram várias as que me marcaram ao longo da vida: a estação do Cais do Sodré, as cheias do Ribatejo e de Lisboa, o vendaval de temporais recentes e, em particular, os terramotos. Aconteçam onde acontecer, os sismos perturbam-me pela violência dos estragos, pelo pânico que provocam, pelo reconhecimento da nossa fragilidade diante das forças da natureza.
O Despertar em Agadir: A Fibra da Humanidade
A primeira vez que tive consciência da nossa pequenez, da incapacidade que temos para chorar os mortos, da energia — simultaneamente frágil e poderosa — que temos para transformar a dor e as lágrimas em músculos para a remoção dos soterrados, foi com o terramoto de Agadir, em Marrocos. Menino e jovem com a quarta classe, habituado a ler jornais para um pai iletrado que gostava de estar informado, segui de perto todo o drama de Agadir: uma cidade arrasada com milhares de mortos. Para Agadir foi toda a ajuda solidária e internacional que era possível reunir na altura. Foi também a primeira vez que vi de que fibra era feita uma humanidade capaz do pior e do melhor.
Lisboa, 1962: Um Coração aos Saltos no 7.º Andar
Dois anos depois, houve um terramoto em Lisboa. Foi pequeno, com poucos estragos, mas o pânico foi geral. As memórias de Agadir ainda estavam frescas. A ciência diz, e eu confirmo, se bem que empiricamente, que o corpo tem memória. Este sismo deixou-me uma marca indelével. Estava no cimo de um prédio em construção, um sétimo andar, precisamente na parte mais frágil. Tínhamos iniciado os trabalhos às oito horas da manhã. Pouco depois, estava em cima da cofragem em madeira para enchimento do betão. De repente, senti as madeiras a mexerem e a dançarem. De início, pensei que se tratava de uma brincadeira: a construção de uma cofragem antiga fazia vibrar prumos e o madeiramento que suportava. Quando olhei para o edifício do lado, vi os trabalhadores a descerem as escadas e a gritarem: “Fujam! É um terramoto!”. Acho que foi a primeira vez que soube o que era um coração domado a dar saltos de corça.
O Inverno de 1969 e a Dança da Madrugada
Algures, em 67, houve mais um; fez estragos, mas não tenho memória física desse. Devia andar por fora de Lisboa. Dois anos depois, em 69, passei por outra experiência traumática. Desta vez de noite. Nessa altura tinha o sono pesado e podiam gritar que não acordava. Mas acordei e senti-me violentado: a cama dançava e batia com fragor na parede e num móvel. Levantei-me assustado e saí do quarto bêbedo e a correr. Encontrámo-nos todos no corredor a perguntar o que se passava. As loiças tilintavam e as mobílias rangiam. Finalmente, tivemos consciência do que se passava e fugimos para a rua. Nunca vi tanta gente de tantos prédios a saírem das portas de acesso aos mesmos, a fugirem com as roupas que tinham e não tinham nos corpos.
Os meus terramotos poucos danos fizeram, mas para mim, fizeram um muito grave: a sensação de impotência. Não há nada, mesmo nada que se possa fazer senão esperar. E socorrer, se os danos assim o deixarem. Desde então, sempre que ocorre um terramoto num qualquer recanto remoto do mundo, lembro-me sempre de um coração a fugir desalmadamente, de um pânico aterrador, de um medo que imobiliza. Mas, curiosamente, não me lembro de ter consciência de quão perto estamos da morte. E no entanto já tive algumas experiências de proximidade, de a tocar, de a ver, olhos nos olhos. Nos sismos, não. Não sei se acontece com todos ou só comigo. A consciência da morte vem muito depois, já o perigo passou. Acho que chamam a isso stress pós-traumático.
A Ilusão dos Planos de Emergência: É Cada Um por Si
Ao longo da minha vida, estive envolvido em ações de prevenção e minimização de estragos catastróficos: cheias, covid, incêndios, terramotos, terrorismo, guerra… Em todos estes casos, havia uma rede de contactos e uma estrutura empresarial a contactar, por ordem, não de importância, mas de poder de decisão. Cada um de nós, e no seu nível, tinha todos os meios para contactar os vários intervenientes. Inclusive, uma mini cábula na carteira, validada com todos os nomes e números dos decisores imediatos. Esta estrutura permitia três órgãos de decisão em cada um dos níveis hierárquicos: se falhasse o primeiro, entrava o segundo, se falhasse o segundo, entrava o terceiro. Tinham plenos poderes para comandar, contactar e ser contactado, vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana. A estrutura funcionava nalguns casos e até estavam definidos os locais de encontro. No entanto, tinha uma falha inultrapassável: e num terramoto, como funciona? Não funciona, cai tudo. Todos têm família para socorrer: é o salve-se quem puder e cada um por si. Não será bem assim, o espírito de sacrifício funciona sempre, mas anda muito próximo da realidade. Quem quer saber da empresa, dos meios de produção, da continuidade do negócio em caso de catástrofe? Acho que ninguém.
Venezuela: Quando Tudo Falha, Resta a Esperança
A Venezuela entrou-me, apesar de longe, pelos olhos adentro. O terramoto, de escala planetária, fez-me lembrar os escritos de grandes homens e pensadores de 1755, quando aconteceu o grande terramoto de Lisboa. Nessa altura, Deus estava zangado com os homens e puniu a sua soberba. Na Venezuela, Deus ou a natureza por Ele, veio lembrar ao mundo o quão incrédulos e impreparados estamos para socorrer quem tem de ser socorrido nas primeiras horas. Tudo falha. Falham as vias de comunicação físicas e virtuais, os hospitais e o pessoal médico, a proteção civil e militarizada, os acessos aos locais de impacto, a maquinaria pesada e ligeira, a energia líquida ou elétrica para colocar os equipamentos a funcionar, falta a água e a alimentação, e até faltam os tão apregoados kits de sobrevivência com rádio a pilhas, dinheiro, enlatados…
Felizmente, e ao contrário dos pulhas que fazem a guerra, não falha a esperança de encontrar alguém vivo, não falham os braços para os retirarem de lá, não falha a esperança para insistir e persistir na busca, quando já não há mais tempo de encontrar alguém vivo — mas existe sempre a esperança de que esse alguém esteja junto de uma poça de água conspurcada, uma réstia de comida.
Os venezuelanos, depois de serem tão maltratados, merecem este muro de solidariedade que se ergueu em torno deles; pena que não tenha sido mais cedo. Por muito que tenha vivido e experienciado, não consigo imaginar pelo que estão a passar; pior ainda, pelo que irão passar nos anos mais próximos. Perderam tudo: mulheres, maridos, filhos, familiares, amigos, as memórias de uma vida, as casas e os negócios. E até perderam o direito a ter raiva porque não têm em quem a descarregar, e até perderam as lágrimas e as dores porque a tragédia é grande demais para as ter. E até o mais miserável deles perdeu a miséria que tinha. Mas não perderam a coragem e a esperança para reconstruírem tudo, menos os familiares e amigos.
Será que os políticos venezuelanos se vão vergar perante a dimensão da tragédia ou vão aproveitar o momento para se reconciliarem com o povo que não os elegeu?
E o petróleo, será que vai continuar a ser pilhado pelo amigo solidário do norte ou vai ser aproveitado para a reconstrução? Que Deus ou a Natureza proteja os venezuelanos. Eles vão resistir, mas sem ajudas, será muito mais difícil.
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