
Porque para Portugal quando a Seleção Nacional joga?
Quando joga a seleção de Portugal, o país para. As tendências e o clubismo ferrenho ficam de lado, e toda a gente se mobiliza para ver a seleção jogar. Esperamos que a paixão que nos leva para diante do ecrã contagie os jogadores. Queremos — não, exigimos — que ponham todo o seu saber e toda a sua garra ao serviço da seleção, para ganharem os jogos e nos devolverem a alegria da vitória. Na realidade, os jogos da seleção não passam de uma tômbola: sabemos que foram escolhidos os melhores cartões, com as melhores qualidades, mas nunca sabemos como se ajustam para devolverem o prémio.
O histórico de Portugal no futebol: Entre a euforia e o balde de água fria.
Os jogos de apuramento ou começam bem e acabam mal, obrigando ao play-off, ou começam mal, de forma aflitiva, e acabam bem, como aconteceu no Europeu de 2016. Depois do longínquo ano de 1966, com uma equipa de sonho e um Eusébio brilhante, tivemos mais frustrações do que euforias. O Europeu de 2004 foi outro balde de água fria: uma equipa que prometia dar muito acabou por nos dar a maior das desilusões, perdendo o jogo de abertura e o de fecho contra a mesma equipa — a Grécia.
Ainda assim, esse ano deixou-nos uma aprendizagem. Foi preciso chegar a Portugal um brasileiro, Scolari, para nos lembrar que a nossa autoestima, como povo e nação, andava por baixo. E tudo começou por uma bandeira, uma simples bandeira. Portugal não gostava de se mostrar e, se pudesse, preferia passar despercebido. Scolari ensinou-nos a pôr a bandeira nas janelas, nos mastros improvisados das quintas e nas antenas dos automóveis. Perdemos o Europeu, mas ganhámos a coragem de nos mostrarmos aos vizinhos, às cidades e ao mundo.
A montanha-russa da Seleção e o milagre do Euro 2016.
De então para cá, apesar de estarmos quase sempre presentes em fases finais, a seleção tem sido uma autêntica montanha-russa: tão depressa temos a adrenalina no máximo como ficamos prostrados com as displicências de jogadores e treinadores. Depois de termos aprendido a mostrar a bandeira, agora, para o pior e para o melhor, ela está sempre presente.
Em 2010, fomos obrigados a ir ao play-off do Mundial da África do Sul, com as vuvuzelas a entupirem-nos os ouvidos. O mesmo aconteceu em 2012, no Euro da Polónia e Ucrânia, e em 2014, no Mundial do Brasil. Em 2016, porém, veio o triunfo dos novos Heróis do Mar.
É caso para perguntar: como foi possível ganhar um campeonato em que fizemos tudo para o perder, menos para o ganhar? Durante o tempo regulamentar, ganhámos um jogo e empatámos seis. Ganhámos um no prolongamento, outro por penáltis e a final também no prolongamento. Éder foi o último dos heróis improváveis.

O verdadeiro peso de Cristiano Ronaldo na Seleção
Seguiram-se Europeus e Mundiais com o mesmo desempenho de euforia e frustração: terceiro lugar na Taça das Confederações de 2017, play-off no Mundial da Rússia de 2018, vitória na Liga das Nações da UEFA em 2019, defesa do título em 2021, Mundial do Catar em 2022, Euro 2024 e, finalmente, Mundial de 2026.
Ao longo de todos estes anos, Portugal não deixou de participar, melhor ou pior, nas fases finais. E, em todas essas participações, houve sempre críticas: jogadores mal escolhidos, treinadores com pouca visão estratégica, grupos de pressão, negócios publicitários e valorizações ou desvalorizações de jogadores. Nos últimos anos, esse descontentamento — ou contentamento — tem-se centrado mais em Cristiano Ronaldo.
Se marca golos, é o maior; se não marca, está velho e a ocupar o lugar de outro com maior rendimento. Pessoalmente, devo confessar que nunca fui grande fã do Cris. Era — e acho que ainda vai fazendo das suas — um bom jogador, mas nunca gostei do seu comportamento nem da forma como abandona os jogos quando correm pior. Em campo, não é, nem nunca devia ser, o Cris e os seus vassalos. Ele é um dos que formam a equipa, e a equipa vale pelo seu todo.
Eusébio não seria Eusébio sem a equipa. O mesmo vale para jogadores do calibre de Maradona, Pelé e Messi. Eles são simplesmente — e é muito — os homens que fazem a diferença, mas uma diferença com raízes no coletivo. Ao longo da sua carreira, Cris afirmou-se como líder pela perseverança, pela entrega e pela forma como empurra os companheiros para a luta. Infelizmente, tal como tem um espírito ganhador, também tem uma rebeldia muito marcada e pouco simpática.
Tenho, porém, de reconhecer que ele é um ícone de Portugal. Enche estádios, leva o nome do país aos locais mais remotos do mundo, e já encontrei a sua camisola em muitos jovens que vivem miseravelmente e cuja única riqueza visível era o nome de Cristiano Ronaldo e o seu planetário siiiiiiiimm! Não gosto do Ronaldo pela atitude de humilhação e desprezo que por vezes mostra perante colegas e espetadores. Será só por isso que vou deixar de o admirar? Não. Acho que devemos lembrar as suas fraquezas, mas também não podemos esquecer que ele já nos deu muito mais do que pequenas birras intragáveis.
A alma portuguesa no Mundial: Sem sofrimento a vitória sabe a pouco?
Nesta última campanha da seleção, com os seus altos e baixos, Ronaldo vai, com certeza, sair de cena como jogador com uma carreira invejável. Mas continuará, acho eu, ligado ao desporto. Durante toda a campanha do Mundial, foi sempre questionado: fica ou continua? Qual é a sua mais-valia para a seleção de todos nós?
Comentadores, treinadores, antigos jogadores, colegas de equipa e o povo em geral têm-se pronunciado por um siiimm e por um nããããoo. Todos têm uma palavra a dizer: que fazer ao Cris? Só que o Cris, à semelhança das suas birras detestáveis, também tem uma palavra a dizer. Quando chegar a altura, todos irão saber.
E lá o temos na seleção, como sempre, numa equipa que, em vez de nos acalmar, põe à prova a nossa capacidade de resistir a um colapso antes do fim do jogo. Há quem lhe chame resiliência. Prefiro chamar-lhe capacidade de sofrimento, que é mais nossa e dói mais. Para quem não saiba o que é, é a alma portuguesa impregnada de teimosia, fé desconfiada, esperança com medo, um modo de acreditar sempre, mas já à espera do pior. Sem dor, a vitória sabe a pouco. Mas, caramba! É preciso sofrer tanto?
Dos quatro jogos que a seleção fez, o primeiro e o terceiro foram um desastre. No segundo, todos embandeiraram: a seleção era a melhor e o Cris estava de regresso. Eu, depois de um balde de água fria no terceiro, não estava com vontade de me deitar tarde para ver o descalabro. Ainda bem que fiz o sacrifício e vi o jogo: há quem diga que foi um dos melhores, senão o melhor jogo do Mundial. O Cris não jogou até ao fim; e, até por isso, também ajudou a seleção a jogar da maneira como jogou.
Se Portugal jogar da mesma maneira na segunda-feira, a Espanha que se cuide. Ganhar ou perder não é a mesma coisa, mas o jogo com a Croácia limpou a má imagem que eu tinha da seleção. Força Portugal! Cris, contamos contigo para dar asas de campeões aos teus colegas.
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