
Estou a escrever uma trilogia sobre o Século XV português, e é dela que vos quero falar aqui. Mas para a entenderem, é preciso primeiro entrar no século que lhe dá corpo.
Todo o Século XV português foi, porventura, o mais áureo do nosso país enquanto nação presa no passado, mas com uma ânsia de abarcar o futuro. Neste período de transição e transformação, o reino teve de tudo, a começar pela reafirmação da independência. Não foi fácil impor a Castela a vontade de homens que desejavam caminhar sozinhos, sem a sua tutela. Se Aljubarrota traçou o caminho de Portugal como reino livre e independente, também fez os fazedores do nosso Século XV.
Os heróis foram muitos e não vale a pena nomeá-los. Um ou dois punhados de homens, de entre muitos, sabiam o que queriam e para onde ir. Foi toda uma aristocracia de descamisados, filhos segundos, terceiros e por aí adiante — os pais tinham fugido e juntaram-se a Castela —, que se juntou a um rei fabricado por mercadores, físicos e doutores, vindos da arraia miúda, os mesmos que Fernão Lopes nos mostra a fazer dos povos os verdadeiros heróis, não só da independência, mas de todo o Século XV.
A Ínclita Geração e a Nova Aristocracia da Arraia-Miúda

Tudo se conjugou para que um rei, filho bastardo de rei, educado nas letras e na Ordem Militar de Avis, casado com uma rainha de outra cultura e não menores saberes, criassem uma corte aberta a todos: mercadores, artesãos, pequena burguesia, uma nova aristocracia ascendente de deserdados e populares. Foi nesta corte aberta e liberal, caldeada por homens com ideias, que nasceu uma geração de príncipes ilustres e motivados, a quem Camões chamou os homens da Ínclita Geração. Para além do português, falavam francês, inglês e latim, eram tradutores, escreviam e deixaram obra feita. De uma corte como esta, habituada a ler e discutir os clássicos, só podiam sair os homens que compreendiam os povos e sabiam falar com eles.
Emparedados por Castela e o mar, não se contentavam com o que tinham e queriam mais. Ceuta foi o primeiro passo, trinta anos depois de Aljubarrota — tempo bastante para que uma ferida deixasse de sangrar sem nunca se fechar de todo. Foi por essa ferida ainda aberta que, quatro anos antes de partirem para Ceuta, as pazes com Castela ficaram apenas prometidas, não seladas; só oito anos depois da tomada da fortaleza é que Castela as assinou em definitivo. Enquanto de um lado se lambiam feridas, do outro já se pensava em mares e projetos de futuro. Não foi por acaso este compasso de espera: era preciso tempo para que as gerações mais velhas desaparecessem e as novas esquecessem, para que a paz pudesse, finalmente, assentar.
Das Pazes com Castela à Ciência das Singraduras no Mar
Antes, durante e depois de Aljubarrota foi tempo de sangue e sofrimento. Depois de Ceuta e até ao final do Seculo XV, juntou-se tudo: o sangue e o sofrimento, sempre — mas também a paciência, teimosia, experimentação, inovação, traição, os ventos, as estrelas e as estradas do mar. E foi no mar que se revelou mais uma vez a força da arraia miúda. Conduzidos por homens que sabiam o que queriam, deram os braços para realizar os seus desejos. Primeiro os reis que deram liberdade para arrotear os mares. Depois os que sabiam que a riqueza do reino estava no mar: os príncipes. A seguir os mercadores e artesãos que tinham o dinheiro e o saber fazer das naus. Por fim os pescadores e marinheiros que se atreviam a ir um pouco mais além. Os medos eram muitos.
Não era o suficiente para avançar no mar. Era preciso conhecer os ventos, experimentar velas, fazer caravelas mais altas e robustas, adaptar as quilhas das naus para suportarem a força das velas, dar tempo aos homens para que aprendessem a manobrar cabos, roldanas, lemes e vergas. Depois de tudo isto, era preciso conhecer as correntes e os ventos, saber para onde levavam as caravelas. Insatisfeitos pela deriva no desconhecido, ao sabor dos ventos e das correntes, queriam saber por onde andavam. Aprenderam os segredos das estrelas e por elas souberam que estavam algures, alinhados com um ponto na costa. Não sabiam a que distância da mesma. Aprenderam a estimar por um cálculo complicado de retas, circunferências e figuras geométricas, quantas singraduras estavam de través no mar. Uma singradura ia do meio-dia de um dia ao meio-dia do outro. A ampulheta começava a contar ao meio-dia, quando o sol atingia o ponto mais alto do meridiano do lugar.

A Trilogia: De «Um Reino à Deriva» à Chegada à Índia
É sobre tudo isto que falo na minha trilogia que abarca todo o Seculo XV, desde Ceuta, até à chegada à Índia. Falo de dor, sofrimento, traição, guerras ibéricas, novas praias e povos, novas mercadorias e escravos, da busca do ouro e das especiarias, da incessante busca do Preste João, das explorações no mar e dos combates em terra com otomanos, das ajudas papais e das relações com outros reinos, das políticas de casamentos e muito mais. Portugal era um reino apetecível e todos, até Segismundo, do Sacro Império, estavam interessados em manter boas relações com Portugal. Por isso mesmo casou-se com uma princesa portuguesa num aparato de grandeza e afirmação de poder em Roma. No Século XV, Portugal não era um país periférico, era o centro de um mundo que construía diariamente.
Na minha trilogia falo de tudo isto sem paixão nem razão; falo numa linguagem simples e crua, capaz de ferir, apaixonar enojar; falo dos principais construtores do mundo a arraia miúda e os homens que a compreendiam e a empurravam para o mar.
O primeiro livro, «Um Reino à Deriva», publico até novembro, e vai até ao ano da morte do Infante Henrique. No segundo, «A Construção de um Império», temos além do mar, sempre presente, as guerras de África e peninsulares, o vazio das navegações e a retomada em força delas, com a intervenção do Príncipe Perfeito. Neste segundo livro volta a entrar em força a gula da nova aristocracia, agora mais forte e poderosa. No terceiro, «A Chegada à Índia», temos um rei a trabalhar exaustivamente para reconstruir um reino arruinado por sonhos de grandeza do pai, que só lhe «deixou por herança as estradas do reino.» Sem deslargar o leme das navegações, resolveu os problemas deixados pelo pai no reino, pôs em ordem a nobreza e entendeu-se com Castela.
O penúltimo ato do seu curto reinado, depois de abdicar de parte das terras do outro lado do mar, foi a partilha dos mares por áreas de influência, com Castela; o último foi abrir, com a partilha resolvida, o caminho para a Índia.
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Luis Manuel Silva
Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana.Não perca o meu próximo artigo.
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