Galiza e Portugal: Uma Viagem pelos Caminhos de Santiago e pela Língua Comum

Peregrino na Praça do Obradoiro em frente à Catedral de Santiago de Compostela na Galiza
Catedral de Santiago de Compostela – Galiza e Portugal

A primeira grande viagem que fiz — sem contar com a ida forçada a Angola, em 1972 —, foi em 1981. Uma epopeia! Sair de carro de Portugal, em agosto, passar por Espanha, Andorra, França, Mónaco, Itália, Suíça, Alemanha e regressar ao fim de um mês, após passar por tantas fronteiras e trocar e destrocar moedas pelo caminho, foi a maior aventura que um recém-libertado de um regime ditatorial podia ter. Talvez um dia resolva escrever sobre esse mês de aventuras, sem IA nem GPS.

O que achei de mais interessante na viagem foi o regresso e o contacto com o português da minha terra. Já estava farto de línguas estranhas e do esforço que fazia para que me entendessem. O inglês não era ainda a língua universal que é hoje. Felizmente que a mímica gestual resolvia muitas coisas. E resolveu. Na Suíça, tive de explicar a um falante de alemão, que se recusava a falar francês e italiano, um problema na direção do carro. — Até os suíços, que deviam ser multilingues, se recusavam a falar as línguas dos outros cantões. — À falta de melhor, arrastei-o para dentro do carro e obriguei-o a conduzir. Ao fim de meia dúzia de voltas, o cara-de-pau sorriu, apontou para o relógio, fez sinal de uma hora, e quando saí da oficina, conduzia um relógio suíço. Tive sorte: o carro era novo.

Nunca tive, e continuo a não ter, uma opinião favorável sobre os castelhanos. Na ida, passei por Madrid e fui mal recebido. No regresso, passei pela região de Leon, junto aos Montes Cantábricos, e fui bem tratado. Passei à Galiza. Quando parei na bomba, ouvi pela primeira vez o português com sotaque: «queres xeio? Donde bens?» Foi a primeira vez que ouvi o português/galego. Nessa altura, os falantes de galego eram muitos. De então para cá, o galego tem vindo a ser colonizado pelo castelhano.

Caminhos de Santiago: Acolhimento e Marisco Galego

 

Esta semana andei pela Galiza. Foi o segundo ano consecutivo que me aventurei pelos Caminhos de Santiago de Compostela. Durante os dias que por lá andei, devo ter feito cerca de cem quilómetros a pé. Valeu a pena. O sacrifício também se faz com amizade, boa disposição, vinho alvarinho, cerveja, marisco e presunto. Mas também pelo bom acolhimento dos galegos. E sempre em bom português/galego ou galego/português. Os galegos são simpáticos, abertos e acolhedores. Cozinham bem, servem excelente marisco fresco, e, pasme-se, com preços bastante acessíveis. Só por isto, vale a pena ir à Galiza. Mas têm mais, o património natural e histórico galego confunde-se com o património nortenho. Com uma pequena diferença: o rio Minho separa o que sempre foi igual. Não fossem os jogos políticos de dona Tareja com Fernão Peres de Trava, por um lado, e dos bispos de Braga, João Peculiar, e de Santiago de Compostela, Diogo Gelmires, por outro, Portugal e Galiza teriam mantido os mesmos laços culturais ancestrais.

Literatura Galaico-Portuguesa: De Mendinho a Rosalía

 

Desde os meus tempos de criança que ouvia falar da Galiza, quer por amigos e familiares — que ali se deslocavam com frequência —, quer por razões de estudo e leitura ligados aos trovadores galaicos e a mais moderna Rosalía de Castro. Numa das viagens de barco pelas ilhas Cíes, lembrei-me da ilha de São Simião e de Mendinho:

Sedia-m’eu na ermida de Sam Simion / e cercarom-mi as ondas, que grandes som! / Eu atendendo meu amig’

Ao deambular por Vigo, caí num pequeno jardim de homenagem a Martim Codax:

Ondas do mar de Vigo, / se vistes meu amigo? / E ai, Deus!, se verrá cedo!

E sem contar, fui ter a casa de Rosalía de Castro, em Vigo. De Rosalía só conheço alguns excertos citados por escritores castelhanos e portugueses. Sei que é uma referência para gente ilustre, principalmente poetas. No entanto, tem uma vasta obra progressista e vanguardista em prosa castelhana. Os galegos dizem que foi ela que relançou a escrita galega em desuso. Se nós temos um Camões que cerziu o português, os galegos têm Rosalía.

O Futuro do Galego e a Aproximação ao Português

 

Atualmente, há na Galiza duas correntes linguísticas: os defensores do «galego normativo», mais próximo do castelhano, e os «reintegracionistas», que defendem uma grafia galega próxima do português, com o regresso do nh e do lh. Estes são os puristas minoritários. O futuro dirá qual das duas correntes prevalecerá: se a castelhana, se a portuguesa.

No entanto, todos os anos cresce o ensino do português como língua estrangeira ensinada nas escolas galegas. Trata-se de um crescimento real, sustentado por acordos entre a Galiza e o Instituto Camões.

Ao que parece, são cada vez mais os jovens que aprendem e assimilam facilmente o português já que, segundo os linguistas, cerca de oitenta por cento dos vocábulos galegos são comuns ao português. Se a aproximação linguística continuar a avançar, mesmo que hoje seja mais visível no ensino do português do que na reforma da ortografia galega, o galego poderá, no futuro, funcionar como mais um dialeto português, com as variantes vocabulares próprias de cada região particular, à semelhança dos PALOP. Se assim for, o galego recupera parte da sua independência linguística e deixa de ser uma minoria absorvida pelo castelhano. E o português também ganha com isso e absorve mais três milhões de falantes.

Se de Espanha, nem bom vento nem bom casamento; com a Galiza reativam-se os laços que nunca se perderam.

Placa comemorativa em Vigo da primeira impressão de Cantares Gallegos de Rosalía de Castro em 1863
Imprensa de Juan Compañel em Vigo – Rosalía de Castro

«Adiós Ríos, Adiós Fontes»: O Poema de Rosalía

 

Para terminar, deixo este bonito poema de Rosalía. Tomo-o, também, como o meu hino de despedida à Galiza.

Adiós ríos, adiós fontes

adiós, regatos pequenos;

adiós, vista dos meus ollos,

non sei cándo nos veremos.

 

Miña terra, miña terra,

terra donde m’eu criei,

hortiña que quero tanto,

figueiriñas que prantei.

 

Prados, ríos, arboredas,

pinares que move o vento,

paxariños piadores,

casiña d’o meu contento.

 

Muiño dos castañares,

noites craras do luar,

campaniñas timbradoiras

da igrexiña do lugar.

 

Amoriñas das silveiras

que eu lle daba ó meu amor,

camiñiños antre o millo,

¡adiós para sempre adiós!

 

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!

¡Deixo a casa onde nacín,

deixo a aldea que conoso,

por un mundo que non vin!

 

 

Fim do Artigo

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Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

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