A Despedida de Cristiano Ronaldo: O Fim do Sonho e as Lágrimas da Solidão

Reflexão sobre o fim de uma era no futebol português.
Reflexão sobre o fim de uma era no futebol português.

Reflexão sobre a despedida de Cristiano Ronaldo e o fim de uma era no futebol português de 2004 a 2026. O impacto do ídolo na Seleção Nacional, as polémicas da sua carreira e o significado das suas lágrimas na hora do adeus.

As Polémicas e “nódoas negras” de Cristiano Ronaldo: É a vida a funcionar

As imagens de marca de Cristiano Ronaldo são muitas: quase todas desportivamente positivas, algumas negativas, e outras com algumas nódoas nada desportivas. A propósito das tais nódoas negras, relembro a resposta de António Guterres a um jornalista quando o confrontou com o divertidíssimo e aprovado orçamente da República associado ao Queijo limiano: «é a vida!». Foi a sua resposta seca e terminante.

Haverá, porventura, alguém que não tenha nódoas negras? Eu sou o primeiro a admiti-las e não me orgulho de algumas. É a vida a funcionar com altos e baixos, com comportamentos nobres e menos altruístas. Fomos moldados com o barro impuro do Éden.

Não me interessam as tuas nódoas, ó Cris; não desejava que fosses um menino mal comportado quando perdes. Mas que diabo! O que é a vida senão paixão nos momentos mais decisivos? É na paixão que vem ao de cima o que temos de melhor e pior. Se a paixão nos tolda e impede que a nossa racionalidade objetiva de meninos bem-educados não deixe que o verniz estale, isso é a humanidade no seu melhor. E ainda bem que assim é.

A paixão no futebol: Cristiano Ronaldo e os heróis de infância

A humanidade permite-nos fazer uma comparação com os nossos ídolos. Acima de todos nós, pairam todos os Cris do mundo de qualquer meio artístico. Eles são um exemplo, não do que queremos ser, mas de como podemos suavizar e melhorar as nossas vidas. Não almejamos ser tão bons como eles, mas tentamos, com os seus exemplos, mudar um pouco. E até ajudamos a contribuir para que todos os que nos rodeiam os vejam como exemplos a seguir.

Lembro-me de que quando era jovem e lia os meus heróis d’Os Mosquitos, que queria ser como eles. E esforçava-me para que assim fosse. Claro que só acordei para a realidade da vida desses heróis inexistentes muito mais tarde. No entanto, fui crescendo e sendo formado para essa gente de ilustres fantasmas e figuras reais. E ainda continuo, porque não deixo de ser influenciado por quem tenha comportamentos que sejam facilmente adaptáveis à minha maneira de ser.

Queiramos ou não, o Cris é um imenso espelho esférico que abarca o globo. Não há ninguém que não se reveja nele, e até acredito que conhecem mais facilmente o seu nome do que os governantes dos seus próprios países. Ao longo dos anos, com alguns erros e virtudes, o Cris foi crescendo e alargando cada vez mais as fronteiras da sua ilha, de Portugal e dos países por onde passou e jogou.

De 2004 a 2026: O histórico de lágrimas de Cristiano Ronaldo na Seleção

O Cris é uma figura planetária. Como tal, todos lhe conhecem os seus pontos fortes (muitos) e fracos (poucos). Os que o seguem mais de perto até sabem o que faz no seu dia a dia, o que come, por onde anda… Mas todos, sem exceção, conhecem a prostração do homem, o que faz dele uma pessoa tão frágil e vulgar como todos nós. É um igual entre os iguais que somos.

Em 2004, um menino de 19 anos perdia a inocência ao chorar inconsolável quando perdeu a final com a Grécia. Em 2016 chorou, não de raiva, mas de impotência por não poder ajudar a equipa. Uma lesão obrigou-o a sentar-se na relva. Pouco depois, e já no final do jogo, chorou mais uma vez de alegria: Portugal era campeão europeu. Em 2022, no Catar, depois de abandonar bruscamente o campo, o mundo viu-o chorar convulsivamente nos túneis, a tentar esconder a cara e as lágrimas. Em 2024 chorou por falhar um penálti. Redimiu-se nas grandes penalidades: foi o primeiro a avançar para a marca das grandes penalidades. Nesse jogo, brilhou a grande altura Diogo Costa que defendeu três grandes penáltis.

Em 2026, no Portugal-Espanha, o Cris volta a chorar, desta vez sem esconder as lágrimas. Eram as lágrimas da desilusão e da despedida. Eram as lágrimas escondidas de todos nós, as lágrimas da frustração por uma equipa que se acreditava fosse mais longe. O herói de tantos duelos vitoriosos sucumbia com dignidade e agradecia. Uma carreira com mais de vinte anos, seis grandes provas mundiais, muitos campeonatos nacionais e europeus ganhos, algumas botas de ouro ganhas e outras roubadas, tantas vezes o melhor em campo, despedia-se com dignidade, agradecia e aplaudia aos milhares de adeptos e fãs. Depois, sem se despedir, retirou-se para os túneis a chorar sozinho: o choro da fragilidade e da solidão.

Obrigado, Cristiano Ronaldo: O lugar na história do futebol mundial

Obrigado, Cristiano Ronaldo, por tudo o que fizeste pelo futebol e por Portugal. Tens um lugar na história e ninguém to pode tirar. Só por inveja ou ingratidão é que não reconhecem o contributo que deste ao futebol mundial.

Mais uma vez, OBRIGADO, Cris!

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Luís Manuel Silva é escritor português, autor de seis livros, cuja obra se destaca pela sensibilidade narrativa e pelo olhar atento sobre a condição humana. Com uma escrita envolvente e marcante, constrói histórias que desafiam a uma reflexão. Veja a Biografia do autor

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