O 25 de Abril, Angola e um encontro no Areeiro

Uma reflexão sobre os 3Ds do MFA, o fim da Guerra Colonial e a juventude devolvida aos portugueses

Homenagem a Luís Represas: memórias, música e o Tejo como pano de fundo da história dos Trovante e do pós-25 de Abril.
Homenagem a Luís Represas: memórias, música e o Tejo como plano de fundo da história dos Trovante e do pós-25 de Abril.

De Angola ao Puto: O Fim Adiantado da Guerra Colonial

Com o 25 de Abril, vieram os três 3Ds do Movimento das Forças Armadas: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. Nessa altura estava no terço final da minha comissão em Angola. No final do ano, em dezembro de 74, regressei ao puto, quando faltava uma semana para completar os dois anos de comissão. Se não fosse o 25 de Abril, ainda teria de ficar mais seis a oito meses. Os últimos batalhões da guerra colonial de Angola já regressavam muito para lá dos vinte e quatro meses regulamentares. Havia batalhões que regressavam com mais de trinta meses. Para além dos 3Ds, o MFA devolveu-me cerca de seis meses de vida.

Angola: entre a alegria e o medo

Cheguei em plena anarquia política pós-25 de Abril, com batalhões de barbudos a recusarem-se a embarcar para renderem os que lá estavam, e os colonos a serem descarregados em massa nos aeroportos e portos de Portugal. Não vivi o 25 de Abril tal como foi vivido em Portugal, mas vivi-o intensamente em Angola: primeiro com alegria, seguida de imediato, no dia seguinte, de medo. Entre nós, havia a consciência de que, fosse qual fosse o destino do país, em África os primeiros seis meses — até à clarificação dos destinos das colónias — iam ser, tal como foram, de duras batalhas de afirmação dos movimentos de libertação. Por todo o lado aconteceram peripécias e umas quantas mortes. Os movimentos precisavam delas.

Dois Natais em Angola e no Regresso Perfeito

Felizmente, tal como cheguei em dezembro de 72 a Angola para passar o Natal, também cheguei em dezembro de 74 para passar o Natal. Entre um e outro, não sei qual foi o mais confuso para mim: o primeiro porque não sabia quantos natais iria festejar, o segundo porque cheguei e andava eufóricamente perdido. Mas cheguei.

O regresso e o “dinheiro barato”

Nessa meia década do pós-25 de Abril — que eu considero, no meu caso, um período de dinheiro barato — procurava encontrar o meu lugar junto de amigos e ex-camaradas de guerra. Por entre comícios, petiscos, reinício de estudos, trabalho e patuscadas, fui almoçar e jantar algumas vezes a um restaurante que havia na Avenida de Paris, ao Areeiro. Ao lado do restaurante havia uma loja de mobílias de um familiar, e até por isso acabava por frequentar o restaurante.

Com o tempo, vim a saber que a Isaura, nome do restaurante, era bem frequentada por algumas figuras mais ou menos conhecidas. A Isaura tinha a sala de refeições numa cave. Um amigo meu, ex-camarada da minha guerra, estudava arquitetura e, quando entrávamos no restaurante, costumava dizer: «Há duas coisas que me arrepiam a pele: uma que a universidade me ensinou — odiar caves sem caminhos de fuga — e outra que aprendi na tropa: nunca voltar as costas à entrada.» Como às vezes estávamos em grupo, ríamos e desvalorizávamos.

Os Trovante e a Juventude que Não Tivemos

Quando ia à Isaura, em grupo ou em pares, descia as escadas e sentava-me ao fundo, à direita, a um canto. Por vezes, no outro canto da sala, estava uma outra mesa com um grupo de jovens barulhentos e ligeiramente mais novos. Não muito, mas para quem fez a guerra, sai-se mais velho e bastante amadurecido nos modos de estar e dizer. Os rapazes que foram à guerra saem completamente diferentes de quando partiram. Não é dos livros, era o comportamento dos regressados: diziam que vínhamos cacimbados, talvez uma maneira carinhosa de dizer que estávamos malucos.

Aquele grupinho que ali estava era tudo menos cacimbado. Mais tarde viemos a saber que era um grupo musical que se reunia para discutir letras e músicas. Foi na Isaura que conheci Os Trovante e o Luís Represas. Talvez fosse ali que tivesse nascido Os Trovante. Eram jovens, miúdos, alegres e cheios de vida. E nós chegávamos a invejá-los pela sua vivacidade, se comparada com a nossa postura à mesa, mais contida e civilizada. Entre nós, ex-militares combatentes, olhávamos para os últimos quatro anos e pensávamos no que tínhamos perdido. Por coincidência, um membro do meu grupo veio a ser figura da televisão. Com o tempo, fomos ouvindo Os Trovante e a voz do Represas, e comentávamos: «O puto tem uma voz bonita e futuro.»

Luís Represas 1956 - 2026 | Uma homenagem á sua alegria de viver.
Luís Represas 1956 – 2026 | Uma homenagem á sua alegria de viver.

Homenagem a Luís Represas

Não me recordo se alguma vez falámos ou não, mas pelo menos cumprimentávamo-nos. Ao fim de algum tempo, as caras começaram a ser conhecidas. Confesso que nunca fui a um concerto dos Trovante, aliás, como a nenhum outro, mas gostava de os ouvir. O jovem gadelhudo, de cara redonda, tinha boa presença, ria-se muito e gerava empatia com facilidade. Mais tarde, deixei de frequentar a Isaura e andei por outras paragens. Mas nunca esqueci Os Trovante nem o jovem irrequieto.

Nunca soube alimentar invejas, mas o Luís Represas nunca soube, nem imaginou sequer, a inveja que eu e os meus colegas sentíamos pela alegria desmedida que tinham. Quando tínhamos a idade deles, estávamos em grupo e desejávamos ter os mesmos comportamentos alegres e descomprometidos — fomos privados disso, e de muito mais. O 25 de Abril deu-nos os 3Ds e devolveu também o futuro e a alegria de viver aos jovens.

Luís Represas, esta é a minha maneira de te prestar homenagem e de agradecer as belíssimas músicas que me deste. Como dizes: só Deus tem os que mais ama.

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Luís Manuel Silva é escritor português, autor de seis livros, cuja obra se destaca pela sensibilidade narrativa e pelo olhar atento sobre a condição humana. Com uma escrita envolvente e marcante, constrói histórias que desafiam a uma reflexão. Veja a Biografia do autor

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