
Uma viagem no tempo pelas vivências, tradições e recantos da antiga quinta dos Campos Novos.
À medida que vamos avançando no tempo, vamos regressando às origens. Não físicas, mas memoriais. Quase sempre, os regressos não são conscientes, surgem na forma de sonho. Nunca me apercebi que tivesse tido conversas ou pensamentos nos dias anteriores que indiciassem o início de trabalhos silenciosos na fabulosa caixa de retenção de memórias.
O Caminho dos Campos Novos
A meio da noite, o sonho acordou-me e disse-me que estava nos Campos Novos, em Guimarães, uma pequena quinta com quatro campos. A meio e na extremidade dos campos, junto a um caminho de carros de bois, ficava uma casa de lavradores. O caminho nascia junto de uma curva apertada, em U, na Costa, descia até a Azenha, entrava por um grande portal coroado, passava por entre dois grandes casarões de lavradores apalaçados, com ruínas anexas de tempos mais abastados, subia ligeiramente, passava pela quinta do Jerómninho, à direita, a quinta do Toninho e da Quintinha de Pé de Cão, à esquerda, e por último, passava ao lado da casa dos Campos Novos, à esquerda. Mais à frente, acabava na estrada que ligava Guimarães a Fafe e Felgueiras.
A Escola Primária e as Tradições
Se bem que tivesse nascido em Azurém e vivido na Oliveira, as minhas memórias não abraçam estes espaços. Mas estão bem presentes nos Campos Novos. Foi aqui que cresci e mesmo ao lado, frequentei a primária. Primeiro numa casa do bairro, hoje conhecido por Dom Afonso Henriques, depois na escola nova, que fui inaugurar com todo o rigor: tamancos em madeira e fato de jovem menino lavrador, com camisa, colete e faixa à cintura, para receber as forças vivas da região com cantares e bailares à moda de Guimarães. Alguém com chapéu na cabeça, vestido de fato e gravata, destacou-se dos civis e religiosos vestidos a rigor, cortou a fita e a partir de então passamos a frequentar uma escola novinha em folha.
A escola estava equipada com o que de mais moderno havia: carteiras, secretárias, mapas, armários com pesos e medidas, e até uma novíssima menina com 3 olhos, acompanhada por uma cana da índia. Tinham como missão, afagar-nos o corpo, principalmente a cabeça e as mãos. Mas as retretes e as torneiras de água eram o encanto da rapaziada. Digo rapaziada porque as meninas ficavam do outro lado da escola, devidamente protegidas dos zoilos por um muro alto no recreio, a horas desencontradas. Não sei como as meninas se comportavam, mas os meninos gostavam de ir muitas vezes às retretes para fazer xixi e lavar as mãos. Tal não tinha sido possível na casa do bairro, convertida em escola, nem na maioria das casas habitadas. A minha tinha uma latrina ligeiramente afastada da casa e as torneiras da água eram bacias e cântaros de barro que traziam a água que corria para uma poça, num dos campos da quinta de Pé de Cão.
Rendeiros entre a Terra e a Marcenaria
Nunca soube por que motivo a minha quinta se chamava de Campos Novos, que deu nome ao complexo residencial que fica por cima da Azenha. Ao lado, e quase anexo aos Campos Novos, fica atualmente o Parque da Cidade e a Academia Desportiva do Vitória. Os meus pais eram mais urbanos que lavradores. A minha mãe era filha de um ferreiro e uma tecedeira de restos de panos e trapos; e o meu pai era filho de um carpinteiro e uma costureira. A razão que os levou à quinta, como rendeiros, foi o espaço e a economia caseira. Ali conseguia aliar a exploração da quinta, em parceria de cedência de produtos ao senhorio, com a criação de um espaço de trabalho de marcenaria. Para os trabalhos da quinta, tinha uma jornaleira, paga à jorna, e no tempos das sementeiras e colheitas, pagava a jornaleiros ou obtinha a ajuda dos lavradores vizinhos, que por sua vez recebiam em trabalhos de madeira. Resultava, e nunca lhe faltou apoio.
Por serem um misto de urbanos e lavradores, pela quinta passava muita gente, desde logo familiares e muitos amigos. E até acabaram por acolher em casa, temporariamente, familiares de Felgueiras, a poucos quilómetros de Guimarães. Habitualmente, vinham à cidade em visita, à procura de trabalho, ou em caso de doença para serem acompanhados no hospital. Como os dois eram pessoas dadas e geravam empatia com facilidade, as visitas e merendas ao final de dia eram frequentes. Vinham ao cheiro do vinho e dos mimos da cozinha da minha mãe. Ela não se repetia e era uma criadora nata nos tachos, panelas e frigideiras. Qualquer coisa que fizesse, fosse ao fogo ou fora dele, funcionava como um chamariz. O meu pai gostava da borga em volta dele, comia pouco e bebia menos, mas não deixava de trabalhar na loja, onde todos merendavam. «Ó pás, não ligueides, não ligueides! Deixaide-me cá com as minhas coisas e comeide. Comeide que ainda há mais, não há mulher?»
Histórias e Segredos de Granito
Pelos Campos Novos passou muita gente ilustre e menos ilustre. Dos ilustres, alguns foram e são família por via de compadrio. Dos menos ilustres, mas não menos importantes, foram pedreiros, carpinteiros, ferreiros, que viram na quinta um espaço de trabalho para os seus biscates. Ali se fez cantaria para casas, cemitérios e a Igreja de São Torcato; ali, mercê de uma teima em torno de uma malga de vinho, se fez moeda, só pelo prazer de mostrar que também sabia fazer. A intenção não era lucrar com isso, era demonstrar que a imaginação do ferreiro não tinha limites e fazia qualquer peça que lhe fosse pedida. Quando mostrou as primeiras moedas, os meus pais proibiram-no de continuar e até o expulsariam, se fizesse mais alguma. Convidado a destruir as moedas, recusou-se a fazê-lo, mas deu-as a meu pai para fazer delas o que quisesse. Ficaram escondidas nos buracos das paredes graníticas da loja. Ali morreram. Deverão estar, possivelmente, enterradas nas fundações da Urbanização dos Campos Novos, nome que a quinta deu à urbanização.

O Despertar da Memória
Os sonhos, para além dos pesadelos que nos fazem soar, ter medo e saltar da cama, trazem-nos mundos e vivências sem sentido, momentos de ternura, e de saudosa lembrança. Por vezes, apetece-me saltar da cama para os escrever e recordar ao amanhecer, mas o abraço dos lençóis impede-me de o fazer. Quando acordo de manhã, sei que sonhei sobre algo de que gostei, mas não recordo. Os sonhos também têm esta capacidade — infeliz? feliz? — de sonhar e esquecer. Ainda bem que alguns permanecem e nos levam até paragens paradisíacas.
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Luís
Adorei esta pincelada que fizeste relativa aos Campos Novos.
Que maravilha de literatura.
Por lá andei juntamente com meus pais e irmãos.
Mereces um grande abraço por escrever de maneira tão distintas está passagem dos tempos antigos.
Que bom te ter enviado mensagem para receber se volta este presente.
Parabéns.
Muito obrigado Armando pelas tuas palavras tão generosas. Fico muito feliz por saber que o texto te trouxe boas recordações. Um grande abraço e tudo de bom!