
Do Porto Degradado ao Boom do Turismo: O Altar e a Sombra
Em 2005 ia semanalmente ao Porto, e lembro-me de que a Avenida dos Aliados era uma dor de alma, e a Ribeira, o Barredo e outros locais eram ninhos de ratos. Lisboa não ficava atrás. Tinha medo de passar por alguns locais depois de determinada hora. Por duas vezes, ao passear pela Baixa, de dia, com as minhas crianças, vim-me embora porque as ruas vazias, com casas degradadas, me assustavam.
Depois, por volta de 2010, o turismo explodiu e requalificou o país todo. Hoje dá gosto passear por ele de lés a lés. Mas se o turismo trouxe abastança, riqueza e higiene, trouxe também coisa má: baixos salários, imigração de má qualidade, aumento do custo de vida e falta de casas. É essa falta de casas que levou os jovens às ruas do Porto e de Lisboa e que nos veio despertar para uma realidade adormecida.
Não culpo o turismo, bem pelo contrário: foi a forma mais rápida de alindar um país feio. Culpo a falta de previsão política a longo prazo. Não preciso de ser político nem doutorado para saber que isto tinha de acontecer. No meu círculo familiar, de amigos, conhecidos e conhecidos de conhecidos, há quem tenha casas no alojamento local. Eu próprio tenho uma. Mas há quem tenha 5, 10, 20, 50 ou mais casas afetas ao alojamento local. Multiplicando isto por «n» casos, são muitos milhares de casas fora do mercado de arrendamento.

Se o país tem mais ou menos os mesmos habitantes que tinha há 10 ou 20 anos e as casas vão para o alojamento local, era possível prever, em cinco anos, que alguma coisa tinha de ser feita. Pergunto: se eu, que não sou técnico de elevada craveira como os que foram passando pelos governos, percebi que as casas afetas ao alojamento local saíam do circuito do arrendamento e os moradores foram empurrados para fora delas, o que andaram a fazer esses técnicos para não preverem atempadamente que era preciso construir, «rapidamente e em força», como alguém de má memória disse noutras circunstâncias? Só pode ter sido por uma classe política incompetente.
O Pecado Capital de Uma Classe Política Sem Experiência de Vida
A resposta, receio, vem de longe. Desde a crise dos anos negros da pré-troika, Portugal tem vivido num doce marasmo de política de nada fazer. Paralelamente, em anos de eleições, as abstenções têm vindo a aumentar e os jovens têm-se alheado por completo das votações. Há razões válidas para ver a nossa juventude afastada da política, principalmente a partir dos anos 2000. Afastaram-se das urnas e andam pelas ruas da amargura. Se antes o fascismo queria jovens para a guerra, agora a democracia quer que os jovens vegetem.
Esta situação devia preocupar os partidos políticos, mas parece que não. Da direita à esquerda, a política tem vindo a ser feita por velhos para velhos. É uma geração política pós-25 de Abril que perdeu o contacto com a realidade. Embora tenha conhecido o salazarismo pela rama, foi empurrada pelos pais que fizeram Abril para os muitos lugares disponíveis até ao ano 2000. A partir de então, as gerações seguintes encontraram as portas fechadas.
Mais grave ainda, a educação pós-Abril era de qualidade deficiente, por falta de educadores à altura. Como era preciso eliminar o analfabetismo e elevar a escolaridade a níveis superiores, as passagens administrativas, em todos os graus de ensino, foram o pão nosso de cada dia. O país acelerava a educação dos jovens, os alunos passavam de ano administrativamente nas escolas e universidades e, como precisávamos de uma classe política formada academicamente e competente profissionalmente, os partidos arregimentavam-na nessas mesmas escolas e universidades, com doutoramentos feitos a colar cartazes.
Este é o pecado capital de grande parte da nossa classe política atual. Malformados e sem experiência de vida, não só ocuparam o aparelho político como foram invadindo todo o aparelho administrativo, central e local, como dirigentes de topo em empresas estatais ou participadas, mas também nas empresas particulares e multinacionais com interesses dependentes da boa vontade do Estado. Banca, comunicações e energia eram/são alfobres de administradores e gestores incompetentes, supervisionados pelos que sabiam cuidar dos dinheiros dos acionistas.
A Fuga de Cérebros e o Fecho das Portas à Juventude
A realidade descrita, com uma pincelada mais carregada ou ligeira, pintou o quadro do nosso país e fechou, a partir de 2000, o acesso dos jovens altamente qualificados (as escolas e universidades tinham, forçosamente, de se adaptar, para integrar os melhores alunos no quadro de ensino académico) ao mercado de trabalho público e privado. Impedidos de aceder às carreiras que lhes tinham sido prometidas pelos políticos, depois de formados, passaram a ser sustentados pelos pais, em casa. A partir de então, tinham duas opções: seguir os encorajamentos dos governos para emigrar ou admitir que era uma geração rasca formada para servir à mesa ou ser caixa de uma qualquer multinancional ou lojeca mixuruca. Muitos, de todas as classes e graus de ensino, tiveram mesmo de emigrar. Saíram de um país “rico” para desenvolver países “pobres”, com despesas de formação a custo zero.
Muitos mais ficaram em casa dos pais. Se a vida já estava difícil para os pais, ficou pior depois de gastarem as poupanças na formação dos filhos. Nunca pensaram que, depois de formados, teriam de os sustentar.
A maior parte dos nossos políticos ou são filhos herdeiros de políticos ou foram formados nas juventudes partidárias, com cursos feitos à custa de faltas sucessivas, passagens administrativas e doutoramentos comprados. Até se inventaram universidades para vender cursos, caso da Independente. Com políticos destes não é possível fazer política séria. Pior ainda: se não são capazes de fazer política séria, também não são humildes para constituir um corpo técnico que os aconselhe e ajude a traçar objetivos técnicos e políticos de curto, médio e longo prazo. A incompetência convive mal com a competência. Quanto mais longe, melhor.
Foi assim, na incompetência, que se traçou o futuro: faltou a previsão que detetasse a tempo as consequências da ausência de medidas. Não falo da incapacidade para prever o rumo da saúde, da justiça, da economia… tudo isso foi dito por muita e boa gente. Falo da habitação, onde o erro estava à vista de um qualquer merceeiro de esquina.
De 2000 para cá, os governos têm acumulado erros atrás de erros, e gravíssimos. Diz-se que o erro político se paga nas urnas. Errado! O erro político devia pagar-se na prisão. E não estou a falar de corrupção, outra área de empobrecimento do país. Estou a falar de políticas de mau investimento e de orçamentações feitas para cumprir despesas. As despesas combatem-se com bons gestores, com aproveitamento e rentabilização dos meios existentes, com a correção de medidas nas áreas menos produtivas, ociosas e viciosas. O faz e desfaz de governos sucessivos e, por contágio, de administrações, direções e quadros intermédios, conduz ao aproveitamento e à desresponsabilização.
A Caixa de Pandora e a Força de Uma Luta Apolítica
Por fim, não posso deixar de louvar esta luta, apolítica, feita por jovens. Embora tenha consciência de que no meio deles há muito oportunismo. Como ouvi um deles dizer: esta luta não é política, diz respeito à esquerda, à direita e aos extremistas: é um problema de todos. Têm razão, é um problema de todos, até dos senhorios. Ninguém escapa, porque o descontentamento, quando se agrava, não poupa ninguém. A culpa é dos políticos, porque não se preocupam em saber onde está o equilíbrio.
Esta crise tem uma virtude e vai ter consequências. Vai trazer os jovens para o mundo da luta; vão aperceber-se de que não estão sozinhos; estão a discutir política habitacional e daí aos outros problemas é um passo; vão descobrir que são uma força latente política; e, quem sabe, gente nova, sofredora e sem vícios, tem capacidade para gerar novas ideias. Os governos, quando governam só para uns, abrem uma caixa de Pandora. Os extremismos são o resultado de quem não sabe ou não quer governar, porque isso lhe convém.
Que o diga o primeiro-ministro que tem uma apetência especial para se esconder ou festejar nos momentos de crise.
Não se pense que este é um problema de Portugal: também é da Europa, que passa pelos mesmos problemas. A democracia é o melhor e o mais bonito dos sistemas políticos, mas é também o mais frágil. Quando se governa para uns, esquecendo os outros, fica um vidrinho.
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Luis Manuel Silva
Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana.Não perca o meu próximo artigo.
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