Nestes tempos de política conturbada, dei por mim a pensar, não nos homens que nos governam, mas no que são e fazem os homens que deviam governar o governo: a Assembleia da República. Sabia quem são os deputados e que áreas profissionais dominam o nosso parlamento?
O parlamento é constituído por 230 deputados e dei por mim a tentar mapear as suas profissões, para perceber quem está, de facto, a desenhar o futuro do país. Como não tenho informação privilegiada, nem poderes e meios de investigação para aprofundar tão misterioso e sério assunto, recorri ao que é mais ou menos publicamente conhecido e consensual.

As profissões dos deputados: os 6 grandes blocos profissionais
Dos 230 deputados da Assembleia da República, procurei distribuí-los por blocos de acordo com as suas áreas profissionais de origem. A distribuição é aproximada e feita por mim, mas permite identificar seis grandes grupos no parlamento:
- Jurídicos (75 deputados): advogados, juristas, magistrados e consultores legais.
- Ensino (45 deputados): professores universitários, professores do ensino secundário e investigadores científicos.
- Economia e Gestão (40 deputados): economistas, gestores de empresas, administradores e consultores financeiros.
- Engenharia e Técnicas (20 deputados): engenheiros, eletrotécnicos, informáticos e arquitetos.
- Saúde (15 deputados): médicos, enfermeiros e psicólogos.
- Política exclusiva e Outros (35 deputados): jornalistas, funcionários públicos, funcionários do aparelho partidário e funcionários autárquicos.
O perfil do parlamento: mais juristas do que produtores de riqueza
Desta análise ao perfil dos deputados, podemos retirar duas conclusões imediatas. A primeira é que, no que toca à formação académica, a esmagadora maioria tem elevadas qualificações.
A segunda conclusão, e talvez a mais preocupante, é a forte presença dos que trabalham diretamente com as leis (75 deputados), em claro detrimento das áreas da produção e das ciências exatas (40 de Economia + 20 de Engenharia). Existem mais juristas no parlamento do que economistas e engenheiros juntos: 75 contra 60.
Quem faz as leis na Assembleia da República?
Se juntarmos o bloco dos Jurídicos com o do Ensino (embora de áreas diferentes, têm formações e hábitos de pensamento próximos), temos no parlamento um quadro de 120 elementos. São profissionais altamente qualificados para a conceção de leis, com grande habilidade para a negociação e sensibilidade social.
Por outro lado, este perfil também explica o excesso de burocracia e a complexidade das leis em Portugal. Perde-se o foco na eficácia e na produção de riqueza. Há um claro desligamento do setor privado por desconhecimento da realidade produtiva, além de um forte distanciamento das engenharias e da ciência.
Os 20 deputados da área técnica são facilmente abafados pela máquina da regulamentação. Se somarmos a isto os 35 deputados que são políticos de carreira ou funcionários, temos um parlamento muito mais vocacionado para o estatismo, a normalização e a fiscalização do que para facilitar a criação de riqueza. Quanto aos 15 deputados da Saúde, estão mais preocupados com os problemas do setor, que não conseguem reformular por não serem em número suficiente, do que com a produção.
Um parlamento de 170 contra 60: onde está o país real?
Grosso modo, a Assembleia da República funciona num jogo desleal de futebol de 170 contra 60:
- Os 170: são os que não estão ligados à produção imediata (Jurídicos, Ensino, Saúde e Outros: 75 + 45 + 15 + 35). A Saúde cuida, o Ensino cria uma cultura de produção a longo prazo, e os Jurídicos e Outros regulam e administram.
- Os 60: são os economistas e engenheiros que geram o “agora” económico do país (40 + 20).
Quando falo do parlamento, falo de decisões imediatas, que se refletem no futuro de todos. Com esta discrepância nas profissões dos deputados, torna-se difícil para qualquer país desenvolver-se. E o parlamento não tem quase nenhum elemento oriundo do país real: homens e mulheres que trabalham a terra, que estão nas linhas de produção ou que conhecem o mar.

Deputados eleitos por círculos que não conhecem
Como podemos ter um parlamento que seja o espelho do país real se os aparelhos partidários impõem candidatos a círculos eleitorais que estes não conhecem?
Vemos frequentemente políticos de Lisboa a concorrer por Beja, ou do Porto a concorrer pela Guarda. Como é que um deputado pode defender os problemas reais de Portalegre ou de Bragança se não conhece sequer a cidade, quanto mais o estado das estradas locais, o saneamento, o acesso à saúde ou o estado das florestas?
Gerir um país é conhecer o país
Gerir um país é muito mais do que fazer leis muito boas, como se fossem uma obra literária, mas que não servem para nada. Gerir um país é conhecer o território, as necessidades das populações, saber quanto tempo leva a chegar ao hospital o filho do deputado eleito, se tiver de o levar à urgência.
Gerir um país é conhecer antecipadamente as necessidades do país a cinco, dez anos de distância: quantas casas são precisas, que pressão vai haver sobre os hospitais, como aplicar a justiça atempadamente, como aumentar a demografia, como acomodar a imigração, como criar condições de empregabilidade aos jovens.
Gerir um país é estar ao serviço dos cidadãos, em vez de servir os partidos.
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Luis Manuel Silva
Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana.Não perca o meu próximo artigo.
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