Da Tinta de Iodo à IA: O Mundo Mudou para Melhor?

Fotografia de piquenique antigo nos anos 50 restaurada e digitalizada por inteligência artificial.
Foto de grupo de excursionistas a piquenicar na praia, Restauro perfeito ou um laboratório assético?

Os tempos estão definitivamente mudados. E as pessoas também. A prova disso está nas temperaturas anormalmente elevadas, os grandes temporais e chuvas e nas famosas quatro estações do ano que deixaram de o ser. Mas também nos comportamentos das pessoas mais recatadas. A vida é feita quase que exclusivamente dentro de casa.

 

As quatro estações num só dia

 

Estes dias de canícula fizeram-me lembrar tempos não muito distantes. As temperaturas eram mais agradáveis e o clima mais certo. Não havia satélites nem sondas que nos dissessem como estava o tempo. Hoje há e dizem-nos com precisão a que horas vai chover ou fazer sol numa determinada localidade. É útil, mas de pouco nos serve porque podemos sair de casa com uma temperatura agradável, o meio do dia aconselha umas banhocas na praia, à tarde vem uma chuvada e chegamos a casa todos molhados. Num dia, passamos pelas quatro estações e nem sequer ouvimos Vivaldi. A propósito, era o tema para introduzir o tempo nas televisões, quando não havia satélites para nos dizerem a que horas podíamos ir para a praia.

 

Telemóveis à mesa e o fim dos piqueniques

 

Quando era jovem, bastava olhar para o céu a meio da semana, às vezes quinze dias antes, e podia-se dizer com alguma precisão que no próximo domingo, ou no outro a seguir, era dia de fazer piquenique. Hoje ninguém faz piqueniques. Pega-se no carro, anda-se trinta, cinquenta ou cem quilómetros, às vezes mais, para ir almoçar ao Alentejo, Ribatejo ou Beiras que fazem lá um cabrito estupendo. É bom, sai-se da rotina do dia a dia, conversa-se um pouco pelo caminho, com mais atenção à estrada do que à conversa, e durante o almoço disseram-se umas larachas, com os olhos no telemóvel, entre amigos e familiares, e estamos de regresso a casa. Foram duas horas bem passadas.

 

O mundo pula e avança: mas a IA assusta?

 

Não sou saudosista. Por formação, sou pelo progresso tecnológico. Também contribuí um pouco para a busca das melhores soluções de última geração. Até estive envolvido com sistemas de gestão e controlo localizado e à distância. Portanto, saudosismo dos tempos passados, não faz parte do meu vocabulário. Gosto mais de sonhar o mundo como Gedeão o sonhava quando disse que «o mundo pula e avança como bola colorida». No entanto, e pela primeira vez na vida, começo a ver-me como o «Velho do Rastelo» quando me confronto e penso que caminhos poderão tomar a IA. O meu pula e avança diz que sim com entusiasmo; o meu velho do rastelo tem medos.

 

Piqueniques, melões e matas sem fogo

 

Mas há coisas do passado que não eram tão maus como isso e deixam saudades. Olhar para o céu e decidir que no domingo vamos fazer um piquenique, era um momento de alegria e confraternização. As pessoas em torno de uma panela de feijoada e um garrafão de vinho comiam, cantavam, contavam piadas, namorava-se, convidava-se aquela miúda que se tinha debaixo de olho para participar no piquenique. Nessa altura, as matas do aeroporto eram mesmo matas e Lisboa, com mantas e alcofas, metia-se no autocarro que passava de hora a hora e ia piquenicar para a mata. Ou então apanhava o comboio no Cais do Sodré e ia a banhos para a praia de Algés ou Carcavelos. Toalhas debaixo dos braços, uns pastéis de bacalhau ou bocados de galinha, levava um frasco e tinta de iodo para ficar queimado na pele, dar-lhe aquele ar de pele tostada, tão do agrado das meninas, e no final do dia chegávamos a casa torrados demais.

 

Aqueles que tinham carro e se aventuravam para mais longe, não se esqueciam de comprar o melão de Almeirim para comer fartas fatias dele numa sombra afastada da estrada, com o garrafão ao lado. Se alguém se esquecia do copo, bebia pelo gargalo. Nessas alturas, os que tinham carro, podiam andar pelo país, passar por densas florestas, que o fogo até se assustava e fugia delas. Se calhar, era porque os poucos bombeiros que havia não se deslumbravam com o fogo, nem as celuloses achavam que não havia interesse em plantar eucaliptos, nem os fabricantes de produtos de combate a incêndios estavam interessados em vendê-los, nem os aviões se interessavam por descargas de água, nem… Nem…

Fotografia antiga e gasta de um piquenique de família e amigos na praia nos anos 50.
A memória com as marcas do tempo: piquenique na praia nos anos 50 (versão original).

Dependência tecnológica: a IA terá alma?

 

Os tempos mudaram para melhor, mas temos mais medo. No entanto, a tecnologia faz o que pode para nos dar conforto e bem estar. Temos tudo, e ainda bem, mas também ficamos mais desumanizados. Começamos a depender mais da tecnologia e menos das pessoas. Será que a tecnologia poderá vir a ter alma como as pessoas? A IA, que sabe mais do que eu, que o diga. Mas que gostava da feijoada ou salada de bacalhau, com o garrafão ao lado, numa qualquer mata sem fogo, ai isso gostava. Mas já agora, e para não ser tão fatalista, também espero que com ou sem alma a IA construa um mundo melhor para cuidar dos orgânicos que somos nós, os animais e a natureza. Sê bem-vinda IA. Temos um pouco do Velho do Rastelo, mas abraçamos-te.

Fim do Artigo

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Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

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