Amor e tabus em Luanda: A antessala de um futuro suspenso

Um encontro na mítica esplanada da Versalhes, onde o pensamento seduz e a iminência do mato dita a pressa de viver.

A Baixa de Luanda era o centro onde todos se encontravam — militares e civis de ambos os sexos — e contrabandeavam, entre outras coisas, dinheiro, marfim e camanga.
A Baixa de Luanda era o centro onde todos se encontravam — militares e civis de ambos os sexos — e contrabandeavam, entre outras coisas, dinheiro, marfim e camanga.

Um encontro inesperado numa esplanada da Baixa de Luanda, onde um miliciano descobre que pensar também pode ser sedutor.

[Excerto do Livro: O Futuro Põe-se ao Pôr do Sol]

— A barreira é a tropa que se atravessa no caminho, cada vez mais próxima, e através dela o futuro fica opaco. Não se vê. Sempre que procuramos ver mais além do muro, só vemos uma palavra: guerra.

— E mesmo com essa barreira, não devias pensar em construir o futuro?

— Houve uma altura em que achava que sim, depois, aos poucos, à semelhança de quase todos, cheguei à conclusão de que não devemos pensar no amanhã: o agora é muito mais importante. Há pressa de viver. Um pouco na continuação do que disseste: viver o presente, nada de complicações.

— E como é que chegaste a essa conclusão?

— Quando somos jovens — lá estou eu, outra vez, com manias de velho —, pensamos no futuro, e esse futuro tem de envolver sempre alguém: os pais, os amigos, as namoradas, toda a gente que faz parte do nosso núcleo e acaba por contribuir, direta ou indiretamente, para a realização da nossa vida…

— Também és sonhador! Surpreendes-me, sabes?! Continua.

— Para além dessa gente, o que está em causa são os estudos, o trabalho, uma atividade lúdica, o casamento, ter ou não ter filhos, sei lá… Uma panóplia de coisas. Tudo isso são as bases, as ferramentas que constroem o futuro…

— Estou a gostar…

— …assisti de perto a projetos de amigos meus, um pouco mais velhos, que tinham ideias e gostavam de as concretizar com o envolvimento de outros amigos comuns. Em alguns casos até avançaram…

— Por exemplo…

— Vou dar-te um, agora que está muito na moda por causa dos Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley, Cliff Richard, apesar de não gostar muito deste último, e outros. No sítio onde moro há muita juventude. Onde há juventude há sempre quem toque um qualquer instrumento musical. De repente, todos se lembraram de formar pequenos conjuntos musicais que quase sempre nasciam em pequenas arrecadações ou garagens. Quem tinha um espaço disponível convencia os pais a cedê-lo, e iam para lá uns quantos ensaiar com os mais diversos instrumentos e lançavam-se na aventura.

— Isso é interessante! E fizeram isso?

— Fizeram, fazem e ainda continuam. E muito mais! Eu próprio, apesar de não perceber nada de música, entrei num que acabei por abandonar…

— Porquê?

— Porque posso ser sonhador — obrigado pelo que disseste —, mas ouvido musical… ia dizer um palavrão… não, não digo.

— Fizeste bem. Não gosto de pessoas com conversas grosseiras. Que aconteceu, então?

— Aconteceu que não consigo distinguir no ouvido duas notas musicais, nem que fossem do tamanho da Mutamba.

— Credo! Conheces a Mutamba?!

— Conheço… Quando esses amigos estavam afinados e prontos para umas brincadeiras, sabes o que acontecia?

— Não.

— Imagina?

— Um deles ia para a tropa!

— Estás a ver como sabes? E mais. Esse era substituído, perdia-se tempo a afinar outra vez a banda, depois de afinada ia outro para a tropa, e assim sucessivamente. Conclusão: qualquer projeto a que se deitasse mão estava condenado ao fracasso porque vinha aí o papão da tropa.

— Isso é só um projeto, e os outros?

— A tropa condiciona tudo aquilo que tu possas imaginar. Quando se estuda, e somos jovens, a mente está em formação e fervilha com ideias à espera de serem postas em prática na primeira oportunidade. Se fores para o instituto ou universidade, tens dois caminhos a seguir: ou o concluis à custa de adiamentos sucessivos ao serviço militar ou não o acabas e vens na mesma, só que um pouco mais cedo. Seja como for, quando saíres da tropa, caminhas para os trinta: és velho! Perdeste o fulgor da juventude para desenvolveres as tuas ideias. Estás cansado, acomodas-te. Por outro lado, se chumbares pelo caminho, perdeste tempo, vens tarde na mesma, e nada te garante que acabes o curso, porque as pessoas que saem da tropa são velhas e maduras demais para voltarem aos estudos.

— Mas tem de ser esse o caminho para quem tem objetivos.

— Tem, de facto tem. Agora imagina que tens jeito para as letras, ciências, pintura… quatro anos de tropa tiram-te a força anímica e a espontaneidade criativa. Se tiveres uma formação científica, perdes os melhores anos relacionados com a capacidade inventiva, mais uma vez criatividade. O cumprimento militar, num mínimo de quatro anos, corta-te todos os vínculos académicos, afasta-te da criatividade, impede-te de entrar na vida ativa com paixão para criar. É um aspirador que te suga as ideias. Próximo dos trinta queres é acomodar-te e safar-te com um trabalho que te dê uns tostões para viver decentemente: toda a tua capacidade geradora de ideias foi sugada pela guerra. Perdeste o melhor da tua juventude. Amadureceste rápido de mais. Tens uma visão menos utópica da vida. Sais velho da tropa. Perdeste completamente a inocência. Queres que continue?

— Olha que fiz bem em tomar o café contigo, para além de sonhador, também és inteligente. E tens toda a razão. Sei bem o que isso é: há um hiato na capacidade produtora de energia da mente humana. O cérebro necessita de ser permanentemente alimentado e, fora do contexto favorável da partilha e absorção do conhecimento e do contacto com os outros, cristaliza e nunca mais recupera. Os sonhos próprios da juventude são cerceados…

— Não me envergonhes, por favor! Estava tão longe de ter esta conversa com uma angolana!

— Isso perturba-te?

— Não. Sou um desbocado e um deslocado, apesar de peixes, sou peixe fora de água. Deste-me corda. Este tempo não é tempo para reflexões profundas.

— Gosto de te ouvir. É pena não ficares cá mais uns dias! Tenho uns amigos interessantes e acho que ias gostar deles. Gostam de pensar como tu: também são sonhadores. Uns românticos com sonhos de liberdade. Tal como tu. Já te disse que não gosto de me afeiçoar aos militares da metrópole. No entanto, sinto que podia abrir uma exceção contigo. Não falas, pensas. Sabes usar a cabeça, e eu gosto de desafios que me ponham à prova. És um desafio interessante, sabes? Vê-se no teu jeito pensativo de falar. E em vez de te atirares a mim, conversas. Gosto de pessoas assim.

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Luís Manuel Silva é escritor português, autor de seis livros, cuja obra se destaca pela sensibilidade narrativa e pelo olhar atento sobre a condição humana. Com uma escrita envolvente e marcante, constrói histórias que desafiam a uma reflexão. Veja a Biografia do autor

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