
Uma memória de Guimarães e de um bom amigo
Já escrevi sobre eles, os amigos, o papel que cada um deles desempenha nas nossas vidas. São muitos e variados: o amigo de infância, de escola, da tropa, dos copos… enfim. Por que volto de novo aos amigos? Porque a noite e os sonhos que a povoam pregam-nos partidas. Esta noite o sonho resolveu fazer uma viagem à minha infância.
Todos têm as suas raízes e as minhas estão bem firmes em Guimarães. Sempre que lá vou, há locais que não deixo de revisitar — a meninice assim o exige. A Oliveira e a bonita praça do Toural — esta continua com o mesmo enquadramento, mas o largo já não é o da minha infância; muita coisa mudou ao longo das décadas —, o Castelo e os Paços, a Costa e a Sub-Costa — aqui tudo mudou por completo.

O Lugar
Quando vou à Costa, a minha paragem obrigatória passa pela Igreja, a Pousada e o jardim floresta nas traseiras da Igreja e Pousada. Foi para aqui que o meu sonho me levou e obrigou a encontrar-me com este particular amigo de infância. De entre muitos lugares de brincadeiras que tínhamos, em conjunto com outros moçoilos, o espaço circundante de Santa Marinha da Costa era um dos nossos preferidos.
Antes de se chegar ao adro da igreja, há um conjunto de três escadarias que se desdobram em lances laterais para outros tantos terreiros. Os dois primeiros amplos. O último é já o adro de acesso à Igreja. Antes ou depois da missa, ou quando esperávamos pela catequista, subíamos e descíamos estas escadarias, sempre a correr. Muitas vezes, sem missa ou catequese, íamos para lá só pelo prazer de estar e brincar naquele lugar.
O adro da igreja era altaneiro e tinha um gradeamento que dava para o pequeno cemitério, lá em baixo. Às vezes, sem que o esperássemos, víamos meia dúzia de homens a dissecarem um cadáver. As autópsias eram ali feitas sem qualquer resguardo e à vista de toda a gente. Não eram publicitadas e nunca se sabia quando ocorreria uma. Só a miudagem a desoras e na brincadeira é que se apercebia desse teatro macabro. E ali nos deixávamos ficar durante horas a ver aqueles homens a mexerem nos apetrechos de corte, serra e costura.

A aventura do gradeamento
À esquerda da igreja, havia o tal gradeamento que impedia os mais afoitos na brincadeira de cair de uma altura de uns seis metros. A base da igreja tinha uns rebordos e saliências curvas de embelezamento em pedra granítica. O gradeamento, retilíneo em todo o seu comprimento, fechava no topo lateral em curva rematada. Deste modo, impedia o acesso ao jardim traseiro. O propósito era louvável. Mas a criançada arranjava sempre maneira de saltar o gradeamento para o outro lado, agarrar-se ao topo granítico com largura suficiente para enclavinhar as cabeças dos dedos, e com os pés em cima do redondo, arrastava-se penosamente ao longo da fachada lateral, até alcançar o jardim.
Este era o caminho mais difícil para lá chegar, mas também dos mais afoitos. Era a forma como tínhamos de mostrar a todos que não tínhamos medo. Tanto quanto as minhas memórias o permitem, nunca ninguém ficou espetado nos ferros ou caiu para o cemitério. Mas por vezes saíamos da aventura com uns arranhões e a roupa rasgada.
A outra forma de alcançarmos o jardim, era pela entrada do que é hoje a Pousada. Nessa altura, o edifício era um aglomerado de ruínas e madeira queimada. Em tempos houve um grande incêndio que reduziu toda aquele espaço a escombros. Esse grande espaço caótico era também um parque de diversões.
No extremo das ruínas, ficava o alpendre ou varanda de São Jerónimo. No meio, tinha, e tem, um lindo chafariz. Do lado da fachada lateral, estavam, e estão, dois belíssimos painéis de azulejo. Os outros três lados do alpendre são abertos, com colunas graníticas quadradas e lavradas que suportam o teto. Milagrosamente, este espaço foi poupado pelo grande incêndio que ocorreu no ano a seguir ao meu nascimento.
Naquela altura, e apesar de sermos jovens traquinas, era o nosso espaço preferido pela tranquilidade e abertura que tinha para um horizonte alegre circundante e a vista para a cidade. Nesse tempo estudávamos e dávamos os primeiros passos na escola primária. Quando queríamos testar os nossos conhecimentos, era para aqui que vínhamos.
O amigo
A vida separou-nos, ele ficou em Guimarães e eu tive de seguir por outras paragens. Mas sempre que ia a Guimarães, reencontrávamo-nos e íamos falando das nossas vidas, namoradas, estudos. Muitas destas conversas decorriam na Varanda de São Jerónimo. Ambos gostávamos deste espaço tranquilo e envolvente.
Uma vez, numa conversa sobre papas, deu-me a conhecer a história da papisa Joana. Não acreditei numa mulher papa. Muitos anos depois, veio-me parar às mãos um livro sobre a vida da papisa Joana. Realidade ou mito, veio-me à memória a história da papisa, contada naquele local.
Mais tarde, fomos ambos para a tropa. Eu embarquei para Angola; ele foi para Mafra. Estes últimos dois ou três anos do meu amigo não foram generosos com ele. Estudava Direito em Coimbra. Envolvido nos estudos e na política caseira, começou a ter problemas de esquizofrenia. Pouco depois, foi recrutado para Mafra. O curso de oficiais não correu bem e chumbou. Reclassificado, foi enviado para o curso de Operações Especiais, em Lamego. Foi o golpe de misericórdia. Nem para soldado servia. Apesar da falta de carne para canhão, uma junta médica deu-o como mais perigoso para os nossos do que para combater inimigos. Passou à disponibilidade.
Em Angola, cheguei a receber algumas cartas dele. Nelas, constatei tristemente que o meu amigo de infância estava perdido num mundo que era só dele.

A perda
Quando regressei, ainda o visitei algumas vezes. Agora agarrava-se teimosamente à religião como tábua de salvação. Apesar das inúmeras tentativas dos pais e dos rios de dinheiro gastos, nada retirava o meu amigo de infância do mundo dele. Um jovem da minha idade, muito inteligente e com uma carreira promissora, não teve oportunidade para se realizar.
A última vez que o vi, foi há três anos. Velho e a babar-se, relembrou algumas histórias que julgava esquecidas. O ano passado, partiu, não sei para onde. Não sei se a religião, a que se agarrou, o salvou. Mas espero que tenha finalmente encontrado o mundo que perdeu na flor da idade.
Foi para este meu amigo que o sonho me trouxe. Pergunto: foi um sonho ou foi a visita do meu amigo? Reencontrei-me com ele na Varanda de São Jerónimo.
Oxalá, meu amigo, que tenhas encontrado melhores paragens. Eras novo demais quando partiste deste mundo, velho demais para ires ao encontro do outro. Melhor que este? Quem o saberá dizer.
Oxalá, oxalá que sim!