O Jornalismo e a Sombra da Censura

Batista Bastos foi um jornalista que viveu cerca de metade da vida no período salazarista. Polémico e com ideias libertárias, não era benquisto pelo regime. Por tal razão, em vez de fugir, como tantos outros, foi-se deixando ficar. As ideias impediam-no de se fixar num jornal. Por isso mesmo, ia colaborando temporariamente em jornais e até na televisão: umas vezes com nome próprio, outras sob pseudónimo.
Deste modo ia vivendo e colaborando, a par com outras atividades paralelas ligadas ao meio artístico, até ser despedido mais uma vez devido aos ideais esquerdistas. Por fim, com maior ou menor dificuldade, conseguiu fixar-se no jornal da sua vida: o Diário Popular, um dos que então eu lia. Nele, foi contornando a censura conforme podia e sabia. O vespertino, apesar de integrado nas políticas estatais, era pequeno, tinha bom grafismo e a informação disponibilizada era mais ou menos neutra e lia-se bem.
O Nascimento de uma Frase Icónica
O jornal viveu intensamente os acontecimentos do 25 de Abril e o pós-revolução. Foi um período bastante agitado e alguns dos jornais de então acabaram por desaparecer. Uns porque alinhavam abertamente a favor do regime, outros porque tentavam combatê-lo de uma forma mais dissimulada, mas com artigos de fundo bastante comprometedores, outros desapareceram devido à luta intensa que se seguiu com redações divididas entre direita e esquerda, na altura bastante emocionais, e que enfermavam por falta de experiência democrática e libertária.
Neste contexto, Batista Bastos desenvolveu múltiplas atividades pró-democracia e acabou por dar início a uma série de programas que se chamavam «Onde é que você estava no 25 de Abril?» Foi uma frase que «caiu bem» e acabou por ser ainda mais popularizada por Herman José.
Memórias de Angola: O Carnaval e o Golpe das Caldas
Onde é que eu estava no 25 de Abril? Algures, no mato de Angola. Mas antes, em Março de 74, a dezasseis, estava no Lobito. No ano anterior tinha vindo de férias ao “puto”. Quando regressei a Angola, eu e mais um camarada decidimos ir ver o famoso Carnaval do Lobito nas férias seguintes, por coincidência, no dia dos meus anos. Foi um mês bem passado e melhor vivido.
No dia do levantamento das Caldas da Rainha, estávamos no Lobito. A notícia do ousado golpe chegou-nos aos ouvidos por amigos de ocasião. Nós, militares em gozo de férias, ficámos sem saber se devíamos apresentar-nos numa unidade militar ou não. Em caso de convulsão, e estando em cenário de guerra, os militares estavam obrigados a apresentarem-se. Os amigos, todos civis, assistiam ao nosso dilema e pronunciavam-se contra e a favor. Alguém alvitrou que não tínhamos obrigação de ter conhecimento do golpe. Pesados os prós e os contras, decidimos arriscar e não nos apresentámos. Mais tarde, e findas as férias, apresentámo-nos no quartel e perguntaram porque não tínhamos regressado mais cedo por causa do golpe das Caldas. — «Qual golpe? Passa-se alguma coisa?» Santa Inocência ignorante dos vinte anos? Visto à distância, tudo isto é demasiado ingénuo para se ter vivido.
25 de Abril: Da Caserna ao Posto de Rádio

Hoje ressoa-me nos ouvidos a voz gutural de Batista Bastos: «Onde é que você estava no 25 de Abril?» Na cama, a escrever para a madrinha-namorada. Depois do almoço na messe, retirávamo-nos para as camas: uns para descansar, outros para escrever, pensar na vida ou ler… E ali nos deixávamos estar uma hora até retomar os serviços nas três secretarias do Batalhão. Eu era das Transmissões e repartia os serviços pelo Centro de Transmissões e Ação Psicológica.
Cerca das treze e trinta, o Rádio Montador, que por acaso tinha como passatempo o Rádio Amadorismo, entrou pela caserna adentro alvoroçado e a gritar: — «Mauta, há um golpe militar no puto!»
Este nosso camarada gostava muito de «contar tangas» e ninguém o levou a sério. Pelo contrário, uma caserna silenciosa correu com ele à força de botas e asneirolas. Como o achei convicto demais na afirmação, fui atrás dele e quando cheguei junto do rádio, mandou-me calar e prestar atenção. O posto emissor estava com ruídos e a voz do locutor ouvia-se em ondas. Lá percebi que estava sintonizado em Rádio Cairo e que esperavam a todo o momento por mais notícias do Largo do Carmo, onde as forças revoltosas cercavam as que protegiam o primeiro-ministro de Portugal. Avisei os camaradas da caserna de que se confirmava um golpe de estado. Pouco depois, comandante e segundo-comandante do batalhão apareceram para ouvir as notícias. Éramos uns quinze em cima de um rádio que mal se ouvia.
Mensagens «Relâmpago» e o Barril de Pólvora
A seguir fui para o Posto de Rádio e Centro de Mensagens. Perguntei aos operadores se tinham recebido alguma mensagem estranha. — «Nada, nem codificada nem clara». Avisei-os do golpe e disse-lhes para ficarem atentos. No Centro de Transmissões tínhamos um pequeno rádio. Percorremos as estações em busca de notícias. Nada! Só a leitura tardia de um pequeno comunicado oficial do Governo e Região Militar de Angola: — «Mantenham-se calmos até que a situação em Lisboa, provocada por alguns revoltosos, seja restabelecida».
Durante o resto do dia, as estações de rádio não se pronunciaram. A meio da tarde, começaram a chover as mensagens no posto de rádio, todas classificadas como Relâmpago (Zulu) e Imediato (Oscar). Habitualmente, estas mensagens eram codificadas, mas desta vez vinham em linguagem clara. Vinham dos comandos militares de Angola e Metrópole e pediam que todas as unidades ficassem em estado de prontidão.
Resposta ao Senhor Batista Bastos

Senhor Batista Bastos, no 25 de Abril estava em Angola e a procurar saber por todos os meios o que se tinha passado no “puto”. Nesse dia e nessa noite não dormimos. Tínhamos uma dupla sensação de euforia e preocupação. Euforia porque algo de positivo poderia resultar no “puto” — também podia ser uma ditadura de linha mais dura. Preocupação porque Angola era um autêntico barril de pólvora com a Rússia, América e China bem representadas nos grupos de libertação: FNLA, MPLA e UNITA.
