O Porteiro da Índia

O meu novo Livro "O Porteiro da índia"
O meu novo Livro “O Porteiro da índia”

Não foi fácil escrever sobre Afonso de Albuquerque, a Índia e os homens dos primeiros anos de quinhentos. Os anos de quatrocentos, pelo seu pioneirismo, aventureirismo e um misto de ciência empírica com académica, foram os melhores anos dos descobrimentos e dos homens que se entregaram a uma causa, eivados por uma sede ingénua de conhecimento.

Albuquerque foi o meu acidente de percurso. Se quatrocentos foi a vitória do conhecimento sobre o medo, a ousadia sobre a ingenuidade; quinhentos traduziu-se na sublimação concretizadora das vidas de uma centúria de sacrifícios. Os meus heróis, aventureiros e traidores situam-se todos em quatrocentos. E se menciono os traidores, é porque eles não desmobilizaram, deram força e mobilizaram os homens do Portugal que somos.

Albuquerque, um homem de transição de quatrocentos para quinhentos, não foi só o porteiro da Índia, foi o homem que abriu os portões da modernidade. Ainda bem que tropecei nele: foi um acidente feliz. O excerto que se segue, “O Porteiro da Índia”, retrata o choque inevitável em Ormuz. É um texto duro, como eram os tempos de então, onde a diplomacia das armas era a única língua que ambos os lados entendiam.

Excerto

No final do percurso, esperava-os o capitão-mor, vestido de gala e armado, sentado numa cadeira ricamente adornada, que por sua vez, estava em cima de um estrado coberto de almofadas e alcatifas.

Os mensageiros de Albuquerque chegaram com a resposta do envio de uma embaixada.

Pouco depois, veio o mensageiro de Ormuz. As vestes luxuosas de corpo inteiro dificultavam o avanço até ao capitão-mor.

— O meu senhor, Coge Atar, pergunta se foi a vossa armada que fez os estragos nos povos de Ormuz. Se vindes como amigo, sereis recebido com honra e respeito. Se com outras intenções, o trato será feito conforme o comportamento.

Albuquerque respondeu de forma direta:

— Dizei que sou capitão do rei de Portugal. Trago a paz para aqueles que a quiserem receber e prestar tributo ao meu rei. Aos que não aceitarem, tenho instruções para os destruir. Por onde passei, encontrei gente que preferiu a guerra à paz que oferecia. Dizei ainda que se quer mercar nos mares da Índia, terá de pagar um tributo, de outro modo, terá a guerra. São estas as condições. Na derrota, tudo vos será imposto.

Coge Atar tentou ganhar tempo, enviando Coge Beirame com palavras conciliatórias, mas Albuquerque manteve-se firme, exigindo resposta positiva sob pena de guerra.

— Diz a Coge Atar que se não responder positivamente, as condições serão as que a guerra ditar.

Na manhã seguinte, Coge Beirame voltou com a resposta:

— Ormuz não costuma pagar tributos, apenas cobra rendimentos de mercadorias. Se quereis contratar algumas, sereis recebido com honra e amizade.

— Podeis ir. O caminho é o da guerra! — respondeu secamente.

Durante a noite, Coge Atar reforçou as defesas, preparando as naus e a praia para o combate. Ao amanhecer, o cenário era de grande aparato militar, com embarcações protegidas, artilharia posicionada e multidão reunida nas janelas e terraços para assistir ao confronto. As ordens de Coge Atar eram determinantes:

— Quero-os vivos para os enviar para as nossas naus, têm fama de grandes homens de mar.

Albuquerque, cercado por naus armadas, manteve a calma e aproximou-se ainda mais da nau de Cambaia. Em conselho de guerra, decidiram como fazer:

— A batalha inicia-se às nove horas, com fogo intenso sobre eles — ordenou Albuquerque.

— Falta decidir o que fazemos depois daquela baforada de fumo que ninguém vê — observou Francisco Tavares.

— Essa é a parte mais importante e não pode falhar! — disse Albuquerque. — Ninguém se aferra às naus inimigas sem eu o fazer primeiro.

— Isso quer dizer, ferro neles, capitão? — perguntou Nuno Vaz.

— Que esperas? Que te sirvam água quente com couratos? — perguntou Alpoim com ironia.

Apesar de tensos, conseguiram rir.

No dia seguinte estavam todos nos seus postos, prontos para o assalto. Subitamente, Dias gritou:

— Capitão, nove horas!

O ambiente era de festa e combate, com armas brandidas e instrumentos de guerra a soar, enquanto os capitães aguardavam a ordem de Albuquerque.

No dia anterior, perguntara a João da Nova:

— Quantos achas que serão?

O galego respondeu:

— Acho cuns binte… binte cinco miles deles.

— Estais cientes do que nos espera?

— Capitão, como nas Termópilas. Vamos a isto! — disse Francisco Tavares, da Rei Grande.

Gostou da alusão. «Francisco tem razão, como nas Termópilas, desta vez com alegria. Linda maneira de morrer!»

Quando ouviu a informação de Dias, sentiu uma aragem fria e gritou para as trombetas:

— Fogo!

As bombardas dispararam alternadamente à coberta, ao costado, ao lume da água, varrendo a armada de Ormuz. O ataque foi tão repentino e feroz que o inimigo não teve tempo de reagir. O fogo de Ormuz revelou-se ineficaz, tanto pelo receio de atingir os próprios quanto pela falta de perícia dos artilheiros e pela cortina de fumo que cegava a todos. Mesmo às cegas, a ordem era para continuar sem parar.

Em pouco tempo, o ambiente festivo deu lugar ao caos. Gritos de dor, madeiras rachadas, mastros caídos, corpos a boiar no mar. Os sobreviventes tentavam agarrar-se aos destroços.

A Cirne afundou duas naus e causou estragos em outras. Quando Albuquerque ordenou o ataque direto, os inimigos debandaram, atirando-se à água. Coge Atar e os capitães tentaram reorganizar a defesa, mas sem sucesso.

Muitos dos que saltaram, procuravam salvar-se a nado para a praia.

Livro "O Porteiro da Índia"
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