Entre a Ingenuidade e a Esperança: O Caminho que nos Resta

Entre águas turvas e céus pesados, a esperança navega firme rumo ao seu destino.
Entre águas turvas e céus pesados, a esperança navega firme rumo ao seu destino.

O Berço da Ingenuidade: Do Útero ao Mundo

Quando nascemos, trazemos o conhecimento do útero da mãe. E mesmo esse, perde-se quando nos cortam o cordão umbilical. De repente, somos postos em contacto com o mundo. Já não nos chegam as paredes do útero e o alimento da mãe: precisamos de explorar e descobrir o mundo com confiança e uma grande dose de ingenuidade.

Mais uma vez confiamos cegamente nos cuidados da mãe. Os alimentos, as carícias, os sorrisos, os estímulos da mãe são o nosso colo e porto de abrigo. Os nove meses de útero ensinaram-nos a reconhecer o rosto da mãe fora do casulo. Neste processo de reconhecimento do colo e proteção, sem espírito crítico, constrói-se a ingenuidade por falta de experiência.

 

A Esperança e o Rosto da Autoridade

Mais tarde, ou imediatamente a seguir, surge a figura do pai. O menor contacto com ele, ainda que meigo e carinhoso, constrói uma imagem de distanciamento presente quando precisamos de mais atenção e segurança. Se a presença da mãe constrói as nossas emoções, a do pai distingue-se pela racionalidade comportamental. Começamos a deixar de ser ingénuos e vamos adquirindo um novo valor: Esperança. A nossa segurança depende da resposta atempada do pai e esperamos que ele suprima as nossas necessidades mais imediatas e futuras.

Ingenuidade e Esperança são dois sentimentos que nos perseguem pela vida fora. Somos ingénuos se esperámos que o Menino Jesus satisfaça os nossos desejos, mas esperamos que um “menino jesus” nos ajude a satisfazer as nossas necessidades. Projetamos nessa figura a esperança de que nos possa valer num momento de aflição.

 

Entre Catástrofes e Eleições: A Realidade Crua

Desde o início do ano tivemos grandes momentos de impacto nas nossas vidas: catástrofes e eleições. Estes dois acontecimentos vão condicionar-nos nos anos mais próximos. Irão passar muitos para que nos esqueçamos da tragédia.

A Ingenuidade está em acreditarmos que os poderes públicos nos vão ajudar e suprir todas as nossas necessidades para reconstruir o futuro; a Esperança é o motor dos nossos desejos para que o façam sem um camião de formulários para justificar as nossas perdas materiais — já que as emocionais jamais serão reparadas.

 

O Homem Providencial: A Lição de Pombal

Há males que vêm por bem, ou bens que surgem depois dos males. O destino casou a desgraça com a esperança num Presidente da República eleito em tempo de desnorte e descrédito nas instituições. A nossa história tem muitos homens providenciais. Um deles, senão o maior de todos, foi o Marquês de Pombal.

«Que fazemos, senhor ministro?» Foi a pergunta de um povo que não sabia o que fazer nem para onde ir quando estava diante de uma tragédia de ruínas de sul a norte. «Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.»

 

Um Caminho para o Futuro: Pactos de Regime

Precisamos, esperamos, que a Providência nos envie um homem com a mesma têmpera. Tenho Esperança de que o novo Presidente não almeje ser artista das redes sociais, dos afetos, das comunicações. Não queremos que seja o primeiro nem o último nos locais de tragédia. Não queremos que governe. Queremos que faça governar bem.

As eleições deram-lhe quase setenta por cento dos votos para ter a autoridade necessária para obrigar o governo a governar bem. Se não conseguir obrigar os partidos a entenderem-se para reconstruir o futuro de todos nós — em pactos de regime a 5, 10, 20 anos — então teremos mais uma oportunidade perdida.

A minha Esperança é que o Presidente obrigue os partidos a fazerem pactos de regime. A minha ingenuidade é que consiga fazer com que governem coligados. Precisa-se urgentemente de gente com a fibra de Abril, Senhor Presidente. Acha que tem força para lhes dizer que acima dos partidos está Portugal? Os homens de Abril sacrificaram-se em prol da nação, que somos todos. Que se passa com a geração de políticos dos últimos anos? No meu tempo, quando descarrilávamos, os pais aconselhavam os professores: dê-lhes! Sr. Presidente, os políticos andam descarrilados: dê-lhes! Se não o fizer, lamentavelmente, falta pouco para que outros nos deem a nós para nos devolverem às vésperas de Abril.

 

Nota do Autor: A Esperança Ganha Rosto

Esta dicotomia entre a esperança que nos move e a dura realidade das instituições é o que define o nosso tempo — e é também a essência do meu trabalho literário.

É neste cenário de expectativas e de busca por “homens de têmpera” que se molda a narrativa do meu próximo romance, “O Porteiro da Índia”. Muito em breve, partilharei convosco esta nova história sobre o que acontece quando a esperança e a realidade se cruzam nos umbrais do destino. Estejam atentos.

 

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