
A Inocência entre Bois e Livrinhos de Pano
Quando aprendia a juntar as letras, chegaram-me às mãos pequenos livrinhos de historinhas de bruxas, fadas, madrastas más e outras histórias de bem-fazer e estarrecer. Eram de muitos formatos, quase todos de papel, mas também de pano. Já não me lembro como me chegavam. Mas sei que uma das minhas fontes era a filha de uns lavradores vizinhos, a Maria, mulherzinha dos seus dezassete anos. De vez em quando contava-me pequenas historinhas de espantar o susto. Depois deixava um punhado de livrinhos que iam passando de mão em mão. A Maria, apesar de lavradeira, gostava de brincar, ler e contar histórias. Quando ia botar os bois ao pasto, chamava-me e a magia acontecia. Foi uma das primeiras pessoas a pôr-me em contacto com livros.
Os Heróis que Malhavam nos Índios
À medida que fui crescendo, fui entrando em contacto com outros tipos de livros, principalmente mosquitos — revistas de histórias aos quadradinhos — e pequenos livros de texto, tipo cinco por dez centímetros. Eram os tempos da literatura de cordel e quiosque. Nestes livros, aprendi a gostar dos meus primeiros heróis: Luís Euripo, Capitão Alvega, Tarzan, Sandokan e todos os bons heróis do Far West americano e a raça maldita dos índios. Adorava ver o Buffalo Bill, Kit Carson, Matt Dillon, Cisco Kid, Zorro e tantos outros a malharem com gosto nos índios. Eram maus! Tiravam o couro cabeludo aos brancos para adornarem a cintura. Mais tarde, vi os feitos dessa raça malvada nas coboiadas das fitas. Filme de cowboys sem índios mortos não prestava.
O Abre-Olhos de Angola: Onde os Heróis Morreram
Tudo isto aconteceu antes de saber que os meus heróis, e seus herdeiros, matavam indiscriminadamente os índios, não só os que defendiam as famílias como até as próprias mulheres e crianças. Quando fui para a tropa, ainda vivia na crença dos grandes feitos dos meus heróis.
Para um país fechado como o nosso, o grande abre-olhos foi a Guerra do Ultramar. Se antes da tropa sabia que era um dever da civilização proteger os nossos valores dos ataques da Cortina de Ferro; na guerra colonial aprendi verdadeiramente a ler, a ouvir, a refinar o espírito crítico. Foi em Angola que o mundo real se abriu. Percebi que embebedar e matar índios, mulheres e crianças, roubarem-lhe a terra, não era um ato de heroísmo. Assim como não foi o genocídio das Filipinas. Enquanto os índios foram exterminados e humilhados, nas Filipinas os povos não vergaram. A eles valeu-lhes o número, coisa que os índios não tiveram. Nem tiveram os revólveres, nem as winchesteres.
A Herança do Napalm e dos Falsos Pretextos
Animados pelas vitórias na Segunda Guerra Mundial e a destruição de duas cidades com bombas nucleares na Ásia, avançaram para o Vietname. A voluntariedade traduziu-se em milhares de bombardeamentos com napalm para asfixiar combatentes, secar culturas e vegetação durante anos, e o consequente abate massivo de vietnamitas. No fim, fugiram.
Depois disso, surgiu o Iraque. Sabia-se na altura que não havia armas nucleares nem químicas, mas o desespero por necessidades energéticas agudizava-se. A intervenção com falsos pretextos abriu as portas do inferno e o terrorismo grassou. Destruíram o Iraque, controlaram o petróleo e acabaram por fugir, deixando o país ingovernável. Que dizer do Afeganistão? Da Venezuela? Do Irão? Da Gronelândia? De Cuba e outros apetites territoriais escondidos? Às necessidades energéticas juntou-se agora a inexistência das terras raras. Quem controlar a energia e as terras raras controla a economia. Mil ou um milhão de mortes é o menor dos males.
A Europa Adormecida e o Porta-Aviões de Israel
Será que a Europa espera ainda pelo seu príncipe para acordar? A Europa acobarda-se e subalterniza-se. Neste mundo de potências planetárias, só a Europa poderá ser uma referência de humanidade, justiça e bem-estar. Para tal, basta que o queira ser, desde que respeite os caminhos das nações. Todas. Grandes países em território e densidade populacional, como a Índia e o Brasil, estão dispostos a colaborar. Mas também a Austrália, o Canadá, o Japão, a Turquia e mais uns quantos. São países com economias e ideologias mais ou menos liberais e democráticas, que vão zelando como podem pelos seus. E a África? É um continente aqui ao lado e só espera que o tratem bem e o ensinem a viver democraticamente. Temos tecnologia, cultura e uma qualidade de vida invejável. Se as lideranças o não perceberem, vamos todos ser engolidos por uma Rússia ou até mesmo Israel.
Desenganem-se as lideranças europeias e árabes: a América anseia por destruir a Europa com a ajuda de Israel e de uma Rússia moribunda. Se a Europa está adormecida, também a Arábia passa pela mesma dormência: em poucos anos serão engolidos por bombas nucleares e armas químicas inexistentes. Israel é o maior porta-aviões americano ancorado na Europa. Só espera pelas ordens de lançamento de mísseis, que até podem ser nucleares. Que árabes e europeus não tenham ilusões e se lembrem de como nasceu o estado de Israel. Ainda que com milhões de anos, um lobo é sempre um lobo, e se for ajudado pela abulia…
Alguns estados jovens e sem raízes culturais, senão as religiosas, ainda não tiveram tempo para aprender boas maneiras.
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Gostei de todas as publicações, tenho interesse de me aprofundar nestes assuntos
Obrigado pela opinião Paulo fico mesmo muito agradecido, poderá acompanhar os meus conteudos semanalmente aqui no blog.
Ótimo texto de interpretações errôneas que fazíamos em nossa juventude.
Obrigado pela opinião.