De 1941 às águas raivosas de hoje: Memória e Inépcia

Entre o frio da tempestade, a noite lembra-nos como somos frágeis e humanos.
Entre o frio da tempestade, a noite lembra-nos como somos frágeis e humanos.

Quando a desgraça nos bate à porta

As últimas duas semanas foram violentas em grande parte do país. Desde que temos televisão, habituamo-nos a ver grandes desgraças pelo mundo inteiro: guerras, incêndios, terramotos, ciclones, vulcões, cheias, secas… Até nos esquecemos de que um dia poderão bater à nossa porta. A adversidade e a dor dos outros compungem e tece um laço solidário pela desgraça humana. É impossível não sentir empatia pelos que sofrem, ainda que distantes de nós.

Do terramoto de 1755 aos ventos de hoje

Portugal parece estar afastado de todas as catástrofes, mas não está. Ainda que distantes no tempo, já passaram por cá pestes, secas, terramotos, incêndios, enchentes e eu sei lá que mais. Só o terramoto de 1755 comoveu a Europa. As cabeças bem-pensantes da época deixaram nome e humanidade, interrogaram e questionaram a justiça divina. Para a Europa, o Deus de antes do terramoto de Lisboa não era o mesmo de depois do terramoto. As pessoas passaram a desconfiar dele e da sua justiça.

Nos últimos anos, em Portugal, os desastres são cada vez mais frequentes e devastadores. Secas, inundações, incêndios, fenómenos destruidores localizados são cada vez mais frequentes. Para agravar, legalizou-se a tragédia com o plantio intensivo de eucaliptos. A sua introdução destruiu a vegetação rasteira e arbustiva para fixação das águas, correu com todas as espécies autóctones, limpou a fauna pequena e graúda e amortalhou a avifauna.

Nos últimos dias assistimos a uma catástrofe de dimensões nacionais: uma sucessão combinada de ventos rancorosos e águas raivosas varreram o país de norte a sul. A maioria das pessoas nunca tinha assistido a tal coisa. Só os mais velhos tinham vivências ou memórias de algo semelhante. Estes ainda se lembram, ou ouviram falar, das mortes e dos estragos que varreram o país em 1941. Eu, sem o viver, tenho-o sempre presente na memória familiar. Nesse dia desapareceu o meu avô. Os filhos passaram a vida a interrogarem-se sobre o que lhe teria acontecido. Todas as tentativas que fizeram até ao fim das vidas esbarraram sempre no desconhecimento: nem morto, nem vivo.

A lama que soterra as memórias físicas

Os acontecimentos dos últimos dias vão deixar marcas a todos os que os viveram. Mais tarde, e à semelhança do que me aconteceu, irão passá-los aos filhos e netos. Enquanto perdurarem os laços, será sempre uma memória viva. Mas também no património individual e coletivo que deixará marcas para o futuro, ainda que reconstruído e melhorado. Por mais solidário que se seja, por mais empatia que se sinta por essa gente que tudo perdeu num dia para esquecer, nunca se poderá reconstruir as memórias físicas dos tempos felizes e menos felizes.

Não foram só as casas, um bem que levou anos de sacrifícios, de construção, de empréstimos pagos e por pagar, de penhoras, de refeições que não se fizeram, das viagens que não se realizaram, dos pratos simples e baratos para poupar, dos brinquedos que não se compraram, das fábricas e oficinas que demoraram anos a construir e capitalizar, dos empregos que se deixaram de ter, das forças que colapsaram por exaustão, das vidas que se recusam a baixar os braços porque o sangue corre nas veias e a raiva é mais forte do que a natureza… foram também as vidas que foram sugadas numa noite diabólica.

É difícil imaginar um país, uma região, com condições de conforto e bem-estar como água, luz, a dispensa cheia, a televisão a funcionar, as estradas abertas, as comunicações a responderem, as chamadas para os filhos e amigos, a net e o Facebook, os posts e fotos, os animais abrigados e alimentados, os quintais e as quintas a produzirem, os multibancos a cuspirem dinheiro… quando nos despedimos do dia, para de seguida acordarmos a meio da noite com o céu a punir os nossos pecados com anjos castigadores a vomitarem ventos e águas nos nossos ninhos.

Entre a inépcia política e o exemplo das fortalezas

A realidade abateu-se sobre casas, aldeias, vilas, cidades, o país inteiro. As populações ficaram cegas e surdas no meio da lama e destroços. Sem comunicações, água, luz, net e Facebook, perguntavam-se com o megafone da boca e dos lábios: «que se passa?». Se quem estava mal informado e sem comunicações não sabia o que se passava para além da sua vizinhança, tinham os governantes as informações, mas recusavam-se a saber e acudir. «É passageiro. Temos a proteção civil no terreno. As autoridades vão fazer o levantamento para se resolver» com as panaceias habituais.

O Portugal dos últimos 50 anos teve duas fases: os anos dos idealistas futuristas e concretizadores; e os anos dos que se perderam pelo caminho em guerras políticas desmobilizadoras com promessas de grandes feitos concretizados no papel e em comissões de estudo perdulárias. Dos primeiros tínhamos ilustres humanistas, dos segundos temos gente ambiciosa, inculta e sem currículo académico e profissional, que cresceu na sombra das juventudes partidárias.

Incapazes de traçarem objetivos para o país e a sociedade, fomos caindo no marasmo da desinformação, do fazer e desfazer a cada novo ciclo governativo, das comissões de estudo e do deixa andar. Para além da incapacidade de resposta aos desastres e da promoção do descalabro, promoveram a estatização partidária e criaram máquinas com engrenagens perras em áreas tão fundamentais como a justiça, saúde, licenciamentos da indústria e construção, e no socorro às populações. Para quê? Para branquearem a incompetência valorizada pela arte do facilitismo negocial privado

Lições de Afonso de Albuquerque para o futuro

Enquanto vejo o país a afundar-se e desmobilizar por inépcia governativa nos dias de hoje, também vejo quão eficazes e diferentes foram as governações dos Séculos XIV, XV e XVI. Nesses tempos longínquos, sucediam-se os homens com os mesmos planos de continuidade. Se necessário, corrigiam, não desfaziam para mudar e refazer. Por isso mesmo, chegaram à Índia. Foi o resultado da persistência e da continuidade para desbravar os mares durante décadas a fio. Para os domar, estudaram os ventos, as marés, as correntes marítimas, as estrelas, a construção e ensaio de vários tipos de naus e velas para as diferentes correntes e mares, criaram uma logística complexa de idas e vindas para o transporte de mercadorias, tiveram de se adaptar a novos processos de alimentação e solidão durante os meses de mar.

Como eram poucos, tiveram de aprender a falar, negociar e construir. As fortalezas espalhadas por África, Ásia, Médio Oriente e Américas são portentos de construções multifuncionais, muitas ainda de pé, que funcionavam como entrepostos comerciais, barreiras amuralhadas defensivas e centros de diplomacia. Visionários, construíam e cuidavam para o futuro. Os nossos políticos, antes de iniciarem a governação, deviam passar por duas ou três fortalezas para aprenderem como os nossos avós construíam e planeavam para o futuro com solidez. Ninguém devia assumir o poder sem ler Afonso de Albuquerque que ousou dizer ao rei: «deem-me dez reinos e eu vos direi como se reina a contento de todos.»

Será que o presidente eleito terá força para chamar os políticos e os obrigar a entenderem-se, saberem governar, construírem projetos de curto, médio e longo prazo para que nos sintamos seguros e confiantes na governação? Será que António José Seguro é suficientemente seguro para lhes dizer que só há um caminho: governar bem, com os melhores, sem cartão partidário? «Entendam-se!»

 

Leitura recomendada: Saiba mais sobre a obra O Porteiro da Índia, na Amazon, a sair brevemente.

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