
Há dias li um conto de Haruki Murakami. Nesse conto, que ele chamou de “Um Conto Popular para a Minha Geração: na Pré-História do Capitalismo Tardio”, fala dos loucos anos da década de sessenta. Murakami é uma figura interessante, de cultura japonesa, influências literárias ocidentais, japonês americanizado com idas e vindas entre o Japão e a América, atleta e maratonista tardio — começou a correr nos trintas —, abriu e geriu um bar de ‘jazz’, no Japão, fechou o bar e decidiu, quando o fechou, que queria ser escritor.
O Acordar Tardio e as Corridas de Fundo
Foi um acordar tardio para a escrita. Desde então, tem repartido a vida pela literatura, maratonas, viagens maratonistas e literárias.
Infelizmente, tenho lido pouco Murakami. Do que li, gostei, especialmente, e não é o mais interessante, de “O Retrato do Escritor”. Não o aconselho. É um livro que pode ser fastidioso para quem não é fã do género de literatura autobiográfica que mistura arte, rigor, disciplina, atletismo, música, uma certa vivência noturna e despreocupada. Poderá ser interpretado como um livro voyeurista masoquista.
Ao longo da vida, comprei livros às cegas. Só nos últimos anos é que comecei a ser mais exigente. O que devia ter lido antes no início, gregos e latinos, leio agora. Felizmente, tive excelentes professores de Português. Por obrigação educativa, lia os clássicos portugueses. Por gostar de heróis, bruxas e romances, lia coboiadas e Emilio Salgari, literatura de cordel e de quiosque, fotonovelas e Corín Tellado. Um bilhetinho para impressionar as possíveis namoradas passava pela recolha de vocábulos no Camilo, Eça ou Júlio Dinis.
O Retrato do Escritor foi um livro que comprei às cegas, pensando que iria entrar na arte de bem escrever. Fui à procura de uma coisa, saiu-me mais do que queria. Porque gostei dele? Salvaguardando as devidas proporções, revejo-me em muito das suas teimosias e caturrices. Bastava-me apenas uma: a arte de bem escrever.
A Marmelada, o Inferno e as Calças Molhadas
Como somos da mesma geração — ele nasceu em início de 49 e eu em início de 50 —, passamos ambos pelos loucos anos de sessenta. Em Portugal, fui ainda bafejado pelos loucos anos de setenta. Sem o querer, Murakami deu-me um murro no estômago. Foi com tal violência que arrancou recordações e vivências passadas do fundo do meu baú. Reparem nesta frase do conto: «Deixem que vos fale dos rapazes e raparigas da minha geração, apetrechados com os nossos órgãos sexuais praticamente novinhos em folha.» Se esta era a realidade japonesa, não era muito diferente da portuguesa. Neste conto, fala da virgindade e da preocupação dos jovens em se manterem virgens para o casamento, mais presente nelas do que neles. Tanto uns como outros tinham poucas ou nenhumas experiências sexuais, aliás, uma palavra proibida pelos bons costumes. O que havia — também fala disso, se as condições estivessem reunidas —, era sexo vestido, como lhe chama. As mãos de ambos passeavam abundantemente por baixo da roupa, na marmelada. Se ele queria avançar mais, recebia um doce olhar e um “para!” ternurento: «na noite de casamento tens tudo.» E ninguém sabia o que era tudo. Quando tal acontecia, por vezes via-me envergonhado e com as calças molhadas. Ela não compreendia — pensando que me tinha urinado —, e eu não sabia o que fazer. Outras vezes, se não me molhasse, andava de perna aberta, com uma terrível dor nos testículos. Só muito mais tarde é que soube que a dor se curava com masturbação. Mas podia ficar louco ou ir parar ao Inferno. De início suportei a dor. Era jovem e não queria ficar louco. Chegou a um ponto em que tive de arriscar.
Achei o conto bonito, ternurento e revelador de um mundo que não existe. Não sei se os jovens de hoje acreditarão que os seus avós tinham de gadanhar muito para conquistar e amar as suas avós. Acredito que muitos nem saberiam o que fazer na noite de núpcias. Estou em crer que pais e mães preparavam os noivos para essa noite especial.
Influenciado por este conto, lembrei-me de um escrito que fiz há muitos anos. Recuperei-o e inseri-o no meu livro «Madalena».
Madalena: O Segredo que o Casamento Guardava
De facto, nunca tinha visto uma fotografia dela na sala enquanto solteira. Foi ao escritório e trouxe o álbum de fotografias. Nus e deitados no chão, foi passando as fotos e vi uma mulher jovem, bonita, elegante, bem formada, ligeiramente menos cheia do que agora, mulher adulta e com uma filha. Fui obrigado a reconhecer que a figura da jovem era uma doce assombração. Foi então que me contou um pouco mais da vida dela. Como era alta e bonita, tinha a altura perfeita para passar modelos. Convidaram-na e passou alguns. Nessas alturas sentia-se bela e elegante, com um corpo perfeito. Ao fim de algum tempo nessa vida sentiu-se muito assediada e apalpada, primeiro de uma forma quase inocente, depois com a intenção de quem queria morder.
— António, aquele não era o meu mundo. Não estava preparada para ele. Mesmo que estivesse, não o queria para mim. Fui educada com padrões religiosos, morais, confiança, lealdade. Era um mundo cão de promiscuidade. A determinada altura, como era muito bonita, percebi que só queriam foder comigo. Apesar de adulta, desconhecia aquela realidade e tive de fugir dali para fora. Desculpa a linguagem, sabes que sou desbocada, mas há palavras que são insubstituíveis para descreverem bem a podridão. Tu viste bem o que queriam? Eu, que fui educada para crescer e casar virgem, aquela gente não pensava em mais nada senão em foder-me! Larguei-os todos! Os meus pais perguntaram porque tinha largado aquilo. Não respondi. Passei à frente. Tu não imaginas o que aquelas meninas fazem para passarem modelos!
Casei Virgenzinha: O Peso de uma Educação Amordaçada
— Deixaste-me curioso, casaste virgem?
— Casei. Era assim. Ou a tua não era virgem quando casou contigo? — perguntou, curiosa.
— É como dizes, as pessoas casavam virgens, pelo menos à frente. Por mim casou virgem.
— Por ti!
— Havia muitas histórias de falsas virgens. Mas era…
— Que falta de convicção… Tens a certeza que era virgem? Eu casei virgenzinha! À frente, atrás, em todos os buracos que tinha. Nem podia ser de outra maneira. Eram os nossos costumes, os nossos hábitos, as nossas educações. Estavam sempre a dizerem-nos: guardar a virgindade para a noite de núpcias. Que querias que fizesse? Se calhar é por isso que sou tarada. Ah! Mas uns beijinhos, uns apertõezinhos, davam-se sempre.
— E um bico?
— Nem isso, ouviste! Nem isso! Eu sabia lá o que isso era! Sempre pensei que era só para fazer xixi e meninos! Visto no tempo de hoje, e à distância, sinto-me roubada do que não tivemos, envergonhada do tempo que vivemos. Do que perdemos. Não sentes o mesmo?
— Comparar o tempo de hoje com o que vivemos, e falar disso a um jovem, é como tentar explicar o sexo dos anjos. Não compreende.
— Não compreende e ainda bem. Éramos tão tapadinhos! Vocês, os homens, sempre tinham mais liberdade. Quando queriam, iam às meninas. Elas estavam ali, tinham as fotografias à porta, era só escolher e pagar para isso. Vocês aprendiam com elas, nós aprendíamos convosco. Foi aquele devasso do Salazar, parecia menino de coro, que fez de todos nós gente estúpida. O meu pai gostava muito desse animal! Pudera, dois putanheiros! Mas ele conseguia ser pior que o meu pai: nojento, sanguinário, sem moral nem escrúpulos — tudo o que lhe viesse parar às mãos, macho ou fêmea, novo ou velho, marchava. Eu e a minha mãe tínhamos-lhe um pó! Nem podíamos ouvir falar dele. Tantas zangas que tivemos com o meu pai por causa desse paneleirão!
— Desviamo-nos da conversa. Já sei como te achavas. Eras muito bonita quando eras solteira! Repara nos teus traços de jovem, no teu rosto, nas tuas curvas, no teu corpo. Estamos nus, vamos ali ao espelho do teu quarto para te veres de corpo inteiro e compararmos com a foto… que vês?
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