O teto de madeira mais famoso de Guimarães nasceu num campo de terra.

Anos de Aprendizagem nos Campos Novos de Guimarães
Cresci nos Campos Novos, hoje engolidos por uma urbanização, próximo do Parque de Guimarães. Enquanto crescia e aprendia a ler, fui acompanhando e ajudando nos trabalhos do meu pai, um analfabeto que conhecia os segredos da madeira. Fora de casa, era um carpinteiro assalariado; quando chegava, refugiava-se na loja, uma oficina com vários tipos de madeiras nacionais e exóticas. Era com elas que se realizava e dava asas à imaginação. Com plainas, garlopas, serras, formões e guilhermes dava forma à madeira. Desenhava e fazia os moldes que ajudavam a criar mobílias únicas de linhas simples e elegantes, vendidas antes de serem vistas. Sem saber ler nem escrever, criava arte na cabeça que depois transpunha para o papel e madeira. Já mais crescido e sabido, ajudava-o nas contas e na escrita. Era o seu escriturário. Um escriturário que estava sempre a ser testado com confirmações e reconfirmações. E com o sim da cabeça de minha mãe, se estava presente, quando ele a interrogava discretamente. Só em casos especiais é que a minha ajuda era necessária porque ele tinha o seu próprio sistema de escrita pictórica. Curiosamente, há poucos anos vi este tipo de escrita, que já tinha esquecido, no caderninho de apontamentos de um taberneiro de Santana, na Madeira.
A Reconstrução do Paço dos Duques e os Dias de Infância
Naquela altura, os presos estavam a construir o Palácio da Justiça de Guimarães. Um largo tapume de madeira rodeava a construção. Por dentro e próximo do cimo do tapume, havia um corredor por onde circulavam os guardas da GNR com arma na mão. Eu e os amigos de infância sentávamo-nos num terreno, em declive, frente a um largo que é hoje o da Mumadona. Sentados no terreno, desejávamos e esperávamos que um preso fugisse para ver o que o guarda fazia. Miúdos! Por trás de nós, estava a ser reconstruído o Paço dos Duques de Bragança. O meu pai fazia ali pouco mais que corte e prego. Não era fácil confiar trabalho de responsabilidade a um analfabeto, a menos que já estivesse referenciado.
O Enigma do Travejamento em Madeira de Castanho
Um carpinteiro estava a construir o travejamento de um dos tetos do grande salão dos paços. O vigamento era feito em madeira de castanho e com a forma de quilha de nau invertida. O trabalho era complexo, requeria muitos cortes e travejamento. Depois de ter construído um ou dois arcos, o vigamento foi suspenso porque os desperdícios eram grandes. Construtores e engenheiros foram à procura de soluções. Alguém alvitrou que havia um carpinteiro engenhoso e que talvez conseguisse fazer o trabalho com pouco desperdício. Mestres e engenheiros foram observar o trabalho do carpinteiro. Um dos engenheiros viu-o a tirar medidas: «Ele nem sabe ler o metro, como é que vai fazer um corte numa viga!» O carpinteiro tinha feito a leitura com o metro ao contrário. Para ele, era indiferente a posição do metro: contava os decímetros e os centímetros e isso podia ser feito com o metro em qualquer posição. Após ser testado com leituras certas, o engenheiro ficou convencido — eu mesmo fui tantas vezes enganado pela posição do metro.
O Molde Rústico Desenhado na Terra
Ainda duvidosos das competências, perguntaram-lhe se seria capaz de construir uma viga do teto sem desperdício de madeira. O carpinteiro disse que sim, mas pediu uns dias para estudar as paredes, a altura do teto, as espessuras e comprimentos dos grossos vigamentos de castanho. Foi na sequência deste pedido que entrei em cena. Um dia, chegou a casa eufórico e disse: «Pede à mãe cartucho e traz um lápis, vamos para a loja.» Na oficina, afiou umas estacas de dois palmos e foi-me dando para as ir metendo numa saca de serapilheira. Quando finalizou, pegou num novelo de corda, martelo e formão, e fomos para um largo campo em frente de casa. No campo, escolheu um local estratégico e espetou uma estaca. Contou os passos para um lado e espetou outra, e assim sucessivamente — depois repetiu o mesmo para o outro lado da estaca inicial. Quando acabou, deu-me a corda e pediu-me para a estender e amarrar no topo de um dos lados. Ele fez o mesmo no outro. Ficámos com um desenho mais ou menos curvo, em forma de arco gótico: dois semi-arcos simétricos, de extremidades iguais. Pelo ponto central do arco, fez descer uma flecha e colocou mais uma estaca no meio, nivelada e à mesma distância das extremidades dos dois arcos. Durante dias, medimos os espaços entre estacas, aproximávamos e afastávamos, mais para a esquerda ou direita, sempre de metro articulado na mão, que umas vezes media direito, outras invertido. O engenheiro tinha razão: aquele processo de medição era confuso para quem sabia ler. Ele media e corrigia; eu escrevia o que me ditava num papel de cartucho. Repetimos tantas vezes quantas as necessárias, até que se sentiu satisfeito. Durante todo esse tempo, nem satisfez a curiosidade da mulher sobre o que tinha em mente.
O teste da viga foi tão bem-sucedido que acabou por fazer os tetos dos grandes salões dos Paços dos Duques de Bragança.
Uma Joia de Património e Memória Familiar
São cada vez menos os dias em que vou a Guimarães. No entanto, sempre que vou à cidade, não deixo de visitar os Paços. Debaixo daqueles tetos, consigo visualizar o meu pai com roupas esfarrapadas a contar passos de uma estaca à outra; vejo-o de metro articulado na mão a medir e a ditar; vejo-me a mim, de lápis na mão, a escrever e reescrever letras e números num velho cartucho de merceeiro; vejo um arco de quilha invertida deitado num campo dos Campos Novos; vejo-o a chegar a casa, todos os dias, a ir para o campo, de metro na mão, tirar medidas e a fazer correções, comigo atrás e a escrever. E vejo, finalmente, a recuperação dos Paços, idealizados por arquitetos e engenheiros, mas cuja joia de maior valor, para mim, foi idealizada e trabalhada por um analfabeto: o meu pai. Um bocadinho dessa joia também é minha. Não era esta joia que os esbirros de Salazar guardavam, eram os presos que construíam o Palácio da Justiça.
O meu testemunho
PS: Não é uma história de ficção, é real e poucos a conhecerão, se estiverem vivos. Se mais ninguém a conhecer, fica o meu testemunho. Pode ser que acrescente um pouco mais de história à rica história do Palácio. E fica o conhecimento de que aquele teto de castanho foi feito por um analfabeto que conhecia o valor da madeira e sabia falar com ela. Partiu novo, 44 anos. E até ao fim da curta vida construiu muitas joias que foram ficando dispersas por casas e outras construções mais nobres. Uns 10 anos antes da minha mãe se juntar a ele, já velhinha com 92 anos, calhou passar por Alhandra e encontrou-se com o padre, já velhinho. Lembrou, com orgulho, uma joia que fizera para a Igreja. Dias depois, a minha mãe, embevecida, contou-me o feliz encontro. Ficamos longamente em silêncio. Passado o momento das lembranças, desabafou num suspiro: «Que pena o teu pai ter partido tão cedo… tinha tanta coisa na cabeça…» Tinha. Se soubesse ler e tivesse vivido mais tempo, não só deixaria joias como também deixaria o nome ligado a elas.
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Luis Manuel Silva
Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana.Não perca o meu próximo artigo.
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