A Magia de Campo Maior: A Alma Humana que o Alentejo Guardou

Uma reflexão sobre a terra, a memória dos homens e a herança do comendador Rui Nabeiro, num país de encantos e contradições que vale a pena amar.

Um pequeno grupo de madrugadores: antes da abertura oficial
Um pequeno grupo de madrugadores: antes da abertura oficial

O amor difícil por um país de grandes gentes

Gosto muito do nosso país. Tal como todos os amores, é uma relação de altos e baixos, com sentimentos de raiva e tristeza. Raiva pela falta de cultura e humanismo dos nossos governantes, falhos de ideias políticas e sociais que conduzam ao enriquecimento e proteção; tristeza porque temos terra e mar e fomos bafejados por uma cultura popular, voluntariosa e disponível para construir e aproveitar do que temos neste pequeno recanto. Esta consciência do ter coletivo e não saber aproveitar esteve sempre presente ao longo da minha vida. Sempre que saio para fora, quando regresso, gosto mais um pouco deste país e não o trocava por outro. Este amor só se compreende, não pelo que me dá, mas pelo que vou encontrando, um pouco por todo o lado, de Norte a Sul. Ama-se o que é belo, e se o que é belo nos dá sem exigir, a relação é profunda e perene.

Das anharas de Angola aos horizontes do Alentejo

Conheço algum mundo e um pouco do seu exotismo. E devo confessar que o primeiro mundo que conheci foi Angola, que me deu o pior, se falarmos de homens, o melhor, se falarmos dos caprichos e da natureza extravagante. Esquecendo a mágoa do pior, deu-me a alegria dos espaços abertos e fechados; a riqueza vegetal, animal e aquífera; a explosão das cores psicadélicas das primeiras chuvas nas anharas; os horizontes matinais e poentes afogueados, carregados de coloridos. Sem saber nem procurar, foi Angola que me abriu a alma para a grandeza do território alentejano. Quando fui para a tropa, estive seis meses em Tavira. Entre idas e vindas, o Alentejo não me dizia nada. Mas foram os primeiros contactos que tive com alentejanos que me abriram a alma para esse grande espaço de horizontes ondulados e sem fim, com amanheceres e entardeceres de sonho.

A lição do tempo lento e o cante da terra sofredora

Em Tavira, tive a sorte de conviver e partilhar seis meses de aventuras com alentejanos — e de todo o país. Nos últimos três meses, fui obrigado a conviver mais de perto com alguns. Fui de imediato seduzido pelas gentes. Mais tarde, já em Angola, tive um companheiro de quarto alentejano. Tanto os que encontrei em Tavira como em Angola, seduziram-me com os seus modos serenos, o andar pausado, o falar arrastado e cantado, a disponibilidade, partilha e voluntariedade, sempre prontos para tudo. Com eles aprendi que o tempo é contado pelo que se vai vivendo. E também aprendi que o Alentejo era uma terra de gente sofredora, causticada pelos maiorais e herdeiros de herdades, que sofriam na pele a prepotência dos donos dos grandes espaços, das aldeias, das suas vidas, das chibatadas dos capatazes, dos tiros da GNR. E ainda estavam sujeitos à fome, às secas, à invasão dos ratinhos das beiras nas épocas das ceifas. Com tantos espaços abertos e horizontes largos, conseguiram adaptar-se e aprenderam os segredos do tempo lento, o falar manso, o corte vagaroso da navalha num naco de pão alentejano com uma tira de toucinho branco e salgado, partilhado no campo e na taberna, em torno de um copo de vinho. O convívio e a partilha convidava uma voz dolente a abrir o cante: Vamos lá saindo/Por esses campos fora/Que a manhã vem vindo/Dos lados d’aurora.

O Senhor Comendador e a ilha de felicidade em Campo Maior

Fui pela primeira vez a Campo Maior, com uns amigos, há uns anos. Esta semana regressei mais uma vez para ver de novo a Festa do Povo, ruas engalanadas com flores feitas de papel. Quem vai a Campo Maior tem de falar, obrigatoriamente, de Rui Nabeiro — o senhor Rui para as gentes da pequena vila, Senhor comendador para os outros — e do café Delta. Não conhecia o Rui Nabeiro, mas volta e meia, o nome ia surgindo, por uma ou outra razão, na comunicação social, na política e em ações ligadas ao café. Mais tarde, foi condecorado por Mário Soares e a partir de então, entre conversas mais ou menos sérias e a brincar, passei eu próprio a referir-me a ele como o senhor comendador. A intenção nunca foi pejorativa. Mas sempre que o ouvia falar na televisão e na rádio, ouvia uma voz semelhante às minhas conhecidas: calma, sem o choradinho do enriquecimento ilícito em torno do café e do contrabando. Pelo meio das conversas, ouvia o génio de um homem com a quarta classe, formado nas duras cadeiras universitárias da vida, com uma voz firme e segura de si, um exemplo de abnegação e humildade, a contar histórias de vida. Um dia — e outros mais — estive diante do homem ereto, doce e bonacheirão, sem prosápia valorativa. Nele, vi a doçura dos meus alentejanos que fui encontrando pela vida fora. Alguns acabaram por ser meus familiares. Os meus alentejanos, se fosse preciso, despiam a camisa para dar a quem precisasse. Não tinha como não apreciar e gostar do senhor comendador, do senhor Rui, como as suas gentes lhe chamavam.

Em Campo Maior, compreendi finalmente como funcionava toda aquela dinâmica local criada pela teimosia de um homem que dedicou a vida ao café, à família, às gentes da sua terra. O senhor Rui Nabeiro não era só o dono da Delta e outros empreendimentos ligados à economia local, com projeção nacional e além-fronteiras, que dava trabalho a toda a gente da vila e das imediações, até na vizinha Espanha. Sem que o reivindicasse, aflorasse, sequer, tinha nas mãos a vila e as vidas das pessoas, que o acarinhavam, mas ele também acarinhava, criando mecanismos de proteção e fixação dos povos, sem necessidade de fugir da terra, como aconteceu em quase todo o Alentejo. O homem forte da Delta conseguiu criar uma ilha de felicidade numa terra onde todos se sentiam bem e livres.

Às sete da manhã, sem movimento.
Às sete da manhã, sem movimento.

A magia das flores de papel e o orgulho do povo

O senhor Rui, com um grande império e poder económico que construiu, fez muito mais: devolveu às pessoas o orgulho de ser e pertencer a um Alentejo de grandes proprietários e herdeiros, com direito a mandar dar chibatadas e a chamar a GNR para dar tiros e matar quem se recusava a trabalhar sem a devida recompensa — uma côdea de pão. Deu aos seus colaboradores e conterrâneos as ajudas e a possibilidade de se conglomerarem. Durante meses, constroem secretamente os enfeites para serem enramados numa só noite. Acordados, vão alindando os arruamentos. Cada rua faz o seu trabalho e só na madrugada do dia seguinte vão de rua em rua cantar as Saias, ao toque da pandeireta, para verem como ficaram as outras. Quem quiser saber como é Campo Maior no seu dia a dia, pode deslocar-se no dia anterior para ver as ruas nuas. Se forem para a cama cedo, no dia seguinte acordam para verem o mais maravilhoso espetáculo do mundo: ruas engalanadas e cobertas de flores com os mais variados temas e coloridos que não cabem numa descrição.

Pouco depois da abertura. Por volta do meio-dia, gente de norte a sul do país e do resto do mundo.
Pouco depois da abertura. Por volta do meio-dia, gente de norte a sul do país e do resto do mundo.

Este é o meu país

Vale a pena ser e viver num país que tem cidades, vilas e aldeias como Campo Maior; gentes como as alentejanas, horizontes matinais e tardios de sonho, ondulações suaves e apetitosas como as de uma mulher, falares e caminhares morosos aprendidos no compasso do tempo, pessoas como Rui Nabeiro que soube construir um império sem descurar os seus.

Este é o meu país, com políticos doutorados e mestrados, incultos e falhos de ideias, mas que mesmo assim vale a pena amar e sofrer.

Sem querer desvalorizar outras terras — que tanto quero, a começar pela minha —, rendo-me à coragem e valor dos campomaiorenses e saio — sem Saias — com aquilo que é mais caro ao Alentejo, água: Dá-me uma gotinha d’água/Dessa que eu oiço correr/Entre pedras e pedrinhas/Alguma gota há de haver.

Fim do Artigo

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Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

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