
O Homem
Quando era jovem, ouvia os mais idosos queixarem-se das cruzes e das cadeiras. Mal se mexiam, pior andavam, com passinhos curtos e sofridos. Eram vidas pesadas e doridas, habitualmente atacadas por volta dos cinquenta anos. Eu, jovem e ereto, via-os naquele sofrimento e só desejava não ter de passar pelo mesmo. E passei. Após tantos anos a tratar mal e violentar a minha espinha, chegou a altura de ter de pagar o preço: um mês abúlico, mas em franca recuperação. Já sei o que são cruzes e cadeiras, já sei como apaparicar a espinha. Tivemos um diálogo franco e democrático e conseguimos encontrar um compromisso: ela dá-me um caminhar ereto, e eu trato-a bem e não me queixo.
A Ponte
Foi nesse diálogo forçado com o corpo, entre a abulia dos dias de repouso e a vontade de voltar ao meu dia a dia, que o pensamento se fixou no meu novo livro: O Porteiro da Índia. Percebi, enquanto tentava recuperar o meu próprio eixo, que a minha obsessão pelo século de quatrocentos e quinhentos vem dessa mesma resiliência. Foi um tempo de bravos e aventureiros que, tal como nós hoje, tiveram de aprender a negociar com o impossível. Nesses cem anos, colocaram-se desafios e defrontaram-se violentas vontades opostas nas coroas e aristocracias portuguesas, com mortes em ambos os lados. Naquele ambiente real, ducal e condal de lutas internas, a ala mais progressista nunca deixou de perseguir os seus ideais de progresso e riqueza. Com eles estava a Arraia Miúda, principal heroína de uma época dourada para Portugal e o mundo.
Começaram por Ceuta e Marrocos, o Al Gharb de Além-Mar, desceram a costa de África, contornaram-na e subiram-na, ainda nessa centúria. Aos poucos, os portugueses iluminavam o mundo com mais mares e terras desconhecidas — e com elas toda uma panóplia de novos produtos. Não falo apenas dos homens de quatrocentos, notáveis os conhecidos, mais notáveis os que não deixaram nome. Mas há um, formado e com muito viver em quatrocentos, que deixou nome e fama para o futuro em quinhentos.
Tenho feito algumas viagens por fora — Américas, Ásia e África — e sempre que ando por lá, lembro-me das gentes de quatrocentos e quinhentos. Principalmente se encontro vestígios portugueses, quer arquitetónicos, quer gastronómicos. Quando penso que esses povos nos deram muita coisa, e ainda hoje desfrutamos do que nos deram, sinto que também os nossos deixaram lá muito, que faz parte do ritual e do dia a dia deles. Quando faço uma viagem para o Japão, cerca de vinte horas de voo, e chego lá com as cadeiras abaladas, pergunto a mim mesmo: mas que raio foram fazer os homens de quinhentos àquelas bandas, montados numa casca de noz, cavalgando ondas, “perdidos” no mar, para chegarem à Índia, Malaca, Japão ou China, muitos meses depois, que somavam um, dois anos, o dobro, ida e volta? Se hoje as minhas “cadeiras” reclamam de uma poltrona de avião, como explicar a têmpera destes homens que faziam do abismo a sua morada?
A Personagem
Tivemos muitos e bons homens por lá; alguns eram maldosos, mas quase todos eram curiosos, aventureiros, gostavam de conhecer, dialogar e conviver com o outro. Albuquerque, o herói do meu livro, era um homem com duas facetas: duro e implacável nas conquistas, mas também organizador, humano e dialogante com os povos locais. Gostava que o vissem como homem violento, o Leão dos Mares, mas gostava ainda mais que o vissem como um homem de verdade e diálogo com os povos e reis locais. Os seus anos de Índia foram de proteção e entreajuda com os reinos vizinhos, porque tinha consciência de que uns efetivos de cerca de dois mil homens eram insuficientes para fazer o que quer que fosse sem alianças.

A Missão
Este meu livro, centrado em Albuquerque, fala dos homens do seu tempo, amores e desamores, ódios e traições — internas e externas — do conquistador e do humano, das paixões e emoções subtis da humana fraqueza no desempenho das missões na Índia e no reino. Albuquerque era violento e humano. A violência vinha-lhe de uma perna presa na cavalaria ancestral e o humanismo da perna colocada na transformação do mundo antigo. Com um pé no passado e outro no futuro, era um homem leal e íntegro.
Nas cartas ao rei disse: «deem-me dez reinos e eu saberei como governar a contento de todos.»
Ele sabia do que falava. Desde o Mar Roxo até ao Mar das Ilhas Banda, passando por Ormuz, Goa e Malaca, teve de tratar com muitos reinos e todos lhe pediam e davam proteção. Enviou e recebia embaixadas da Índia, Arábia, Pérsia, Pegu e das ilhas Maluco. De Malaca, enviou a primeira embaixada à Terra dos Chins. Ao contrário do que acabou por acontecer mais tarde, incentivou, defendeu e subsidiou os casamentos mistos; deu-lhes terras, isentou-os de impostos e privilegiou os negócios da governação com os casais. Fomentou e patrocinou ativamente a educação das crianças para criar uma força administrativa e militar residente, bem formada e culta. A escassez de meios que chegavam do reino obrigava a isso. Um reino com meios humanos e materiais espalhados pelas sete partidas era, afinal, um reino carente.

O Convite
Escrevi “O Porteiro da Índia” para honrar essa lealdade e essa visão. Agora que a minha espinha e eu fizemos as pazes, é tempo de vos convidar a embarcar comigo nesta viagem. O livro ficará disponível este mês.
Descubra a odisseia do homem que fechou as portas do Oriente e abriu as portas da História.
