Emigração

A propósito da nova lei da Emigração, com discussões políticas pró e contra. Um país quase milenar, com séculos de emigração por todo o mundo, discute o acolhimento dos imigrantes: sim ou não?

Emigração
Emigração

Até à década de oitenta, Portugal só recebia imigrantes muito esporadicamente. A guerra franquista, à semelhança do que acontece hoje com a Ucrânia e outras regiões em guerra, empurrou muitos espanhóis para Portugal, principalmente das regiões fronteiriças. Os galegos, por vizinhança e afinidade linguística, foram, desde sempre, imigrantes em Portugal. Até nos deram marinheiros e descobridores. Lembro-me de que carvoarias e tabernas de lisboa eram de galegos. Como eram muitos e trabalhavam nas mais diversas áreas, formaram uma comunidade forte e influente em Lisboa. Não sei se ainda será assim. Hoje, encontrar um galego é como encontrar uma agulha num palheiro. Enriqueceram e já não precisam de sair da Galiza, ou, se saem, vão para melhores paragens.

Nós sempre emigramos e até éramos aconselhados a emigrar, tanto no fascismo — que não consentia a emigração, mas aproveitava bem os dinheiros enviados, principalmente durante a guerra colonial —, como no pós-25 de Abril, quando viam na emigração uma saída para a crise e para a resolução dos problemas dos jovens licenciados.

Os imigrantes lusófonos, por afinidade histórica, vinham de todas as ex-colónias. Infelizmente para eles, como não tinham onde ficar, criaram ilhas e guetos residenciais onde calhava. Os poderes públicos fechavam os olhos e toleravam. Vinham e ocupavam os lugares que ninguém cria. O mesmo aconteceu com os nossos emigrantes na Europa, principalmente, nos bidonvilles franceses.

A partir das décadas de oitenta e noventa, começamos a assistir a um fluxo cada vez maior de imigrantes de países não lusófonos. Vêm de todo o lado. Muitos, dos países por onde andamos emigrados em séculos passados; outros fugiram do colapso dos países originados pela queda da União Soviética, que agora querem reconstruir pela força dos mísseis que matam povos e destroem as economias.

Esta nova lei pretende disciplinar e criar regras para os imigrantes. Acho bem que se criem regras, a começar pelo bom acolhimento e criação de espaços de habitabilidade, dando condições para que os casais se reagrupem e tragam os filhos. A propósito de reagrupamento, recordo que o Canadá e a Austrália promoviam a imigração de casais, de preferência com filhos. Esta promoção da imigração para esses países ainda estava bastante ativa nos anos sessenta e setenta. Eu próprio, já com viagens pagas e acolhimento assegurado pela Austrália, só não fui porque a distância assustava. Aos olhos da altura, era uma ida sem regresso, nem para férias.

Entre familiares, amigos, empresas, centros comerciais, indústria, agricultura e construção, não conheço ninguém que não tenha imigrantes a trabalhar. Muitos, por falta de regulamentação e acolhimento, acabam por ser explorados — no limite, escravizados. Por isso, a lei faz falta, nem que seja apenas para acabar com os oportunistas e redes, nacionais e internacionais, que se aproveitam da situação para enriquecer à custa da exploração destes desgraçados.

Há quem os culpe pela nossa crónica falta de empregos, pela falta de lugares e oportunidades para os nossos. É discutível. Não estou a ver os nossos jovens, depois de vinte anos de estudo, a ocuparem os lugares que eles ocupam, na sua maioria sem qualificações especiais. Até mesmo aqueles lugares que requerem alguma especialização — centros comerciais, restauração, construção… — são facilmente preenchidos com algumas horas, dias ou semanas de acompanhamento. Será que vamos pedir isso a um jovem universitário?

Felizmente, ou infelizmente, somos obrigados a reconhecer que os nossos imigrantes são o motor da nossa economia. Mas não só: contribuem para o aumento demográfico, reavivam as nossas vilas e cidades do interior, contribuem para a diminuição da desertificação das nossas aldeias, partilham experiências e saberes enriquecedores de outros povos.

Será que os nossos políticos e senadores da nação pensam nestas coisas quando votam leis? Não acredito que eles, seus filhos e netos não tenham em suas casas e empresas um imigrante para lhes varrer a casa, passar a roupa a ferro, criar riqueza nas suas atividades paralelas, tantas vezes duvidosas.

Devemos criar leis para disciplinar os imigrantes, mas também para disciplinar os políticos a criarem riqueza nacional que aproveite a todos, principalmente aos jovens, mas também para receber e acolher os nossos imigrantes. Eles não trouxeram as nossas insuficiências; fomos nós que as criamos. Só depois vieram para cá.

Fim do Artigo

Gostou deste artigo? Partilhe com quem também vai gostar.

Um clique pode inspirar outra leitura.

Luis Manuel Silva

Escritor e Autor de 6 obras. Reflexões sobre a condição humana. Veja a Biografia do autor

Não perca o meu próximo artigo.

Receba todas as semanas reflexões exclusivas, análises e excertos inéditos dos meus livros.

* Não será enviado spam. Poderá cancelar a subscrição a qualquer momento.

Comentários de Leitores

Veja o que outros leitores acharam dos meus artigos.

Armando Costa Salgado 12/08/2026 às 9:50
Adorei o artigo. Este minhoto escreve muito bem. Dá gosto acompanhar a sua escrita.

Welfare Fernando Vieira 21/03/2026 às 21:04
Ótimo texto de interpretações errôneas que fazíamos em nossa juventude.

Paulo Rodrigues de Aguiar 19/03/2026 às 13:05
Gostei de todas as publicações, tenho interesse de me aprofundar nestes assuntos
Scroll to Top